Sobre ser mulher brasileira

A verdade é essa: sempre me senti um peixe fora d’água. Eu não tenho, nem de longe, nada que lembre o estereótipo dado às representantes do sexo feminino nascidas no Brasil.

Quando mais nova, isso era para mim um suplício. Afinal, brasileira (a do estereótipo, que fique claro) é aquela morenaça ou mulata (ou oxigenada) gostosona, cheia de samba no pé, um vulcão sexual, sempre disposta a satisfazer o homem, seja no sexo, seja nas tarefas domésticas, ou no papo-furado que acompanha a cervejinha no bar. Uma mulher dedicada ao outro, cheia de bunda, mas sem  muito espaço para a construção de si mesma (a não ser no quesito superficialidades, onde predomina o aspecto físico-visual) – o que dá uma sensação de “burrinha”, ainda que ela não o seja realmente. E eu estava (estou) justamente no extremo oposto disso tudo: magrelinha, branquelona, sem a menor disposição pra ficar agradando homem só por agradar, sem saco nenhum para festa, e tinha fama de CDF. Óbvio ululante que nenhum menino tinha olhos para mim. E na época da minha adolescência ainda havia um agravante: era o auge do axé. A conquista se baseava predominantemente em questões rebolativas – as quais talvez eu até pudesse vir a dominar, se não me sentisse completamente ridícula balançando ao som daquelas letras horrendas (que hoje foram substituídas pelo funk carioca). Eu me sentia um lixo, e como ninguém gosta de lixo…

Acho engraçado, que haja “movimentos” pregando a mudança de perfil das modelos, que são muito magrinhas, e que fazem as mulheres “normais” se sentirem fora dos padrões, dizendo que a mídia impõe a ditadura da magreza, contribuindo para que mulheres fiquem obcecadas em perder peso e acabem até doentes por conta disso. É claro que tudo isso acontece, mas ninguém levanta a questão de que há na realidade padrões para diversas outras coisas sendo difundidos por aí, e que todos eles acabam tendo algum impacto negativo sobre as pessoas. No caso mais específico do “padrão feminino brasileiro”, se por um lado há parte da mídia (a que importa os padrões internacionais) influenciando um perfil muito magro, que não condiz com a maioria das mulheres do Brasil, por outro há a própria sociedade (e uma outra parte da mídia, a “ufanista”, vamos chamar assim) que representa a mulher brasileira como a bisca boazuda – o que, convenhamos, também não é nada legal. Basta perceber a imagem da brasileira que é vendida ao exterior: carnaval, corpos abundantes, roupas escassas, mulheres fáceis e sempre dispostas a “servir”. Enfim, não é à toa que lá fora temos a fama de putas.

Como assim!?! Não somos putas!!!

Felizmente, euzinha consegui encontrar uma estima-própria apesar do olhares de “coitada, como é magrinha” e dos comentários de “nossa, que branqueleza”, e ser feliz sem ter que sair rebolando por aí e parecendo uma acéfala desmiolada – pois é o que esperam da mulher no Brasil.  E que ninguém venha me dizer que “ó, você está reclamando à toa, afinal, é magrinha, branquinha, inteligente, como vai sofrer preconceito, se sentir pressionada?”. Vou dizer para vocês: há preconceito de todas as formas e em todos os lugares. Cada um tem que se esforçar para encontrar seu espaço e ser feliz apesar das pressões e impressões externas, e não se importar se não se encaixa no que é determinado pelo alheio. O bonito, o divertido, o bom, é a diversidade. Há espaço para todos.

PS: Há espaço para todos, mas ninguém merece ser mal tratado por conta de um estereótipo ridículo que é difundido por aí – e há os que gostem e lucrem com ele. Por isso, aderi à campanha do Affonso Romano de Sant’Anna, de que brasileira não é puta. Nada contra a brasileira “da gema” (confesso minha inveja daqueles corpos sensacionais e do gingado sem igual), nem contra as putas (que expõem sua dignidade ao crivo público para sobreviverem) mas é preciso mostrar que somos mais do que estes rótulos…

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