Sobre o mundo do trabalho

Hoje não estou com a mínima vontade de escrever. Aliás, não estou com vontade de fazer nada. Mas resolvi manter o compromisso (mesmo que o escrito seja puro lixo), porque eu sei que se pensar “ah, é só um dia sem escrever”, isso acaba se repetindo, até que o extraordinário acaba sendo o dia em que escrevo, e não o contrário. E eu tenho que honrar a fidelidade dos meus aproximadamente dois (2) leitores assíduos… : )

Eu não costumo falar muito sobre minha vida pessoal aqui no blog (aliás, em lugar nenhum, pra quase ninguém) mas acho que algumas coisas que me afligem são males da juventude contemporânea – e às vezes perceber que existe alguém numa situação parecida com a sua já oferece grande alívio. Então, talvez as bobagens que externarei aqui possam ter valor para alguém (mesmo que seja apenas para mim, já tá bom).

Tenho 25 anos. Até o momento, minha vida tem sido muito boa. Pais legais, que se esforçaram (e se esforçam) para me dar o que eu necessito; uma infância feliz, com quase tudo o que uma criança poderia desejar (tudo bem, nunca tive uma casa da Barbie ou um castelo da She-ra – mas as crianças têm que aprender que também não dá pra ter tudo o que se quer, não é mesmo?); uma adolescência cheia de crises; acesso à educação e à diversão de qualidade (ainda que não possa viajar para a Europa a qualquer hora e tenha que controlar os gastos para conseguir adquirir um produto do desejo); amigos poucos, porém legais; um namorado fofo… Então, por que eu reclamo?

O ser humano parece um ser naturalmente inconformado. Isso tem seu lado positivo, afinal, o interesse em mudar as coisas é que faz o mundo girar. O problema está justamente aí. Eu tenho algum interesse na mudança? Vale a pena eu me esforçar para isso? O que quero da minha vida?

A questão fundamental está não nas relações (inter)pessoais (com as quais, no meu caso, estou muito satisfeita), mas nas relações com o mundo e com o trabalho (que acaba sendo uma das principais formas com a qual cada um dialoga com o mundo em que vivemos). O fato é que não sei o que quero da minha vida, e não tenho estímulos para tentar descobrir. Falo justamente da vida produtiva, de como conseguir condições autônomas de sobrevivência, e de como contribuir para a sociedade. E isso me deixa muito desanimada. Às vezes, até deprimida.

Sempre gostei de estudar. Para mim, sempre foi algo intrínseco, natural. Curiosidade, interesse em saber como as coisas funcionam… Então, nem foi tão penoso (apesar de exigir dedicação e esforço, claro) seguir estudando, principalmente porque sempre tive a sorte de ter o apoio e o respaldo da família: graduação, mestrado, doutorado… Além disso, para cada perfil as pessoas já esperam e determinam que se faça certas coisas. E as pesquisas indicam: que tem mais estudo, ganha mais. Então, aparentemente, este caminho seria com certeza um bom caminho. Fui indo.

E fui indo sem pensar muito, uma coisa levando à outra. E hoje olho o horizonte à minha frente e não consigo enxergar absolutamente nada.

Muitos dirão que isso é coisa de “menina rica”, que tem tudo e não fica satisfeita. Primeiro, que apesar de ter condições boas quando comparada a maior parte da população, estou longe de se rica – tudo que tenho foi conquistado com muito esforço meu e (principalmente) dos meus pais – e dou muito valor a tudo isso. Segundo, acredito que este “fenômeno” seja algo que se manifesta em todas as esferas. Um garoto que nasce na periferia, onde impera o tráfico de drogas, dificilmente vai acreditar que exista alguma oportunidade para ele fora daquele cosmo – simplesmente porque as pessoas de um modo geral esperam que seja assim, e não oferecem muitas chances para que seja diferente.

O mundo atual oferece muito, e te dá pouco. Veja bem: eu vou passar pelo menos 20 anos da minha vida apenas me dedicando ao que seria um “aprimoramento da força de trabalho”, vou chegar próximo dos 30 sem ter experiência no mercado ou contribuição previdenciária – porque no modelo existente, quem se volta para o acadêmico não pode e não tem a chance de experimentar o mundo “real” durante sua formação, a dedicação deve ser exclusiva, e não se faz o menor esforço para que o estudante possa conciliar sua vida acadêmica com uma vida produtiva (com alguma variação de acordo com a área de atuação). Aí, após mais de 20 anos estudando loucamente, fazendo pesquisa em feriado e fins-de-semanas, você recebe um diploma. Sem a menor noção de nada fora daquele cubículo, imagine como são variadas as oportunidades de emprego… Aí você se estapeia com seus (até então) colegas para conseguir passar num concurso que pague razoavelmente bem, ou se conforma a receber uma miséria mesmo após tanta “qualificação”.

Como, diante deste quadro, ainda querem convencer às pessoas que educação vale à pena? Eu estudei esse tanto porque gosto de estudar, mas se fosse pensar de forma mais prática, dificilmente teria me dedicado desta forma. É óbvio que não concordo com o raciocínio, mas compreendo perfeitamente quando alguém diz que no Brasil (especialmente) o estudo às vezes beira a inutilidade.

Eu me apeguei ao exemplo do estudo porque é a minha realidade mais próxima, mas o contexto maior que quero destacar é que as oportunidades oferecidas são escassas: para quem estudou ou não. E não falo apenas de oportunidades diretas, mas também de oferecer meios para que as pessoas consigam enxergar as oportunidades. A formação, na educação formal e na informal, não favorece o auto-conhecimento, não deixa espaço para que se possa utilizar da criatividade e das potencialidades individuais para a sobrevivência e a construção do mundo. As pessoas são condicionadas a modelos pré-existentes, e se não há vagas para o seu modelo, não há vagas para você. Tanto que, os poucos que conseguem fugir das amarras dos modelos alcançam o sucesso profissional. Porém, na maior parte das vezes, a capacidade criativa é tolhida, ou impera o medo de que a fuga aos padrões seja rejeitada ou fracassada – e aí permanece a massa infeliz que cumpre suas atividades simplesmente para a própria sobrevivência, ou à qual faltam oportunidades para que o faça, por simples “questões de mercado”.  

 

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