Ostra feliz não faz pérola – Rubem Alves

Eu não me lembro se já fiz este comentário antes, mas se for o caso, repito: há autores que nos fazem ter a exata mistura de incrível admiração com inveja (aquela invejinha boa, tá? Não vou desejar o mal pra ninguém por causa disso!). Pois que a sensação que temos ao lê-los é a de que: “nossa, que coisa maravilhosa! Por que eu não escrevi isso antes?!”, no caso, é claro, daqueles que assim como eu são aspirantes a escritores…

Às vezes eu tenho o sentimento de que tudo o que poderia ser legal, ou de que todas as idéias (ou pontos de vista) interessantes já foram explorados por alguém – tudo se restringiria à minha falta de oportunidade ou de tempo para encontrá-los, vê-los, e/ou lê-los (lê-los ficou estranho, isso existe mesmo?). E aí fico desanimadinha com a minha própria capacidade, porque, afinal, tem tanta gente boa por aí, que você se pergunta se realmente haverá espaço para você, sem que você soe como uma cópia mal acabada de alguém…

Dentre aqueles que muito admiro, e que despertam essa “inveja boa” (que é aquela que nos inspira e nos faz querer melhorar), está Rubem Alves. De forma geral, eu gosto dos gênios da simplicidade – que é o caso dele. Em “Ostra feliz não faz pérola”, livro dele que estou lendo neste momento, isso fica muito claro. O livro tem um modelo de “esquetes literárias”, digamos assim, em que o autor aborda assuntos dos mais diversos, em textos curtos, no seu estilo bem característico: crítico sem apelar para o doutrinário, poético, de beleza simples e natural, e sempre buscando paralelos com as experiências comuns a todos os viventes para chamar a atenção para o óbvio que ninguém viu – e assim, levar o leitor a aprender por si mesmo e a reavaliar suas próprias posições. Eu diria que Rubem Alves tem o melhor do que se poderia esperar de um mestre ou professor.

E só pra ilustrar um dos trechos que despertam minha “maravilha invejosa”:

“As praias, no inverno, são mais bonitas. Vocês já viram uma vaca coberta de carrapatos? É algo de dar dó… Pois assim são as praias no verão: os milhares de pessoas são carrapatos que infestam as areias brancas. No inverno, as praias são lisas, solitárias. Quase ninguém. Parece que os homens têm medo da solidão. Gostam mesmo é do falatório, do agito, do som… Prefiro a música do mar e do vento porque ela faz eco na minha alma. Não se ouvem vozes humanas. Apenas o pio dos pássaros. E os pensamentos vêm mansamente. (…). Catar conchinhas… Eis aí uma deliciosa brincadeira para quem deseja ser escritor. A alma é um grande mar que vai depositando conchinhas no pensamento. É preciso guardá-las. (…). O problema com os aprendizes é que eles pensam que literatura se faz com coisas importantes. O que torna a conchinha importante não é o seu tamanho, mas o fato de que alguém a cata da areia e a mostra para quem não a viu: ‘Veja…’. Literatura é mostrar conchinhas…”

Tenho que aprender a mostrar conchinhas como você…

(Pensando bem, nem sei se é inveja… Acho que é uma sensação de “estupro ao contrário”, de invasão não acontecida. Porque é como se o autor tivesse ido lá dentro de você para buscar e expor tudo o que você desejava dizer, mas que  por algum motivo você não conseguiu ou não foi capaz… Acaba sendo um momento de comunhão inesperada…).

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s