Mistérios (1)

A mãe, idosa, estava hospitalizada. Quebrara a perna numa queda, e não poderia fazer a cirurgia de que necessitava, devido à frágil condição de sua saúde. A filha acompanhava a mãe, e naquele dia permanecera ao lado dela durante todo o tempo. De mãos dadas com a filha, num de seus últimos momentos de lucidez, a mãe comentou:

– Sabe filha, tem apenas uma coisa nesta vida da qual me arrependo: nunca tive um cachorro.

A filha, que desconhecia este desejo que a mãe jamais manifestara antes, prometeu a si mesma que se a velha saísse daquela situação providenciaria para ela um cãozinho. Contudo, a senhora contraiu uma infecção, entrou em coma, e faleceu dois dias depois do comunicado inesperado.

Durante o velório, qual foi a surpresa da filha, ao perceber que ao lado do caixão da mãe estava sentado um cachorro, um vira-lata malhado, preto e branco. Ela percebeu que os visitantes alimentavam-no, e devia ser este o motivo que fazia com que ele permanecesse ali. Mas na hora em que o cortejo iniciou sua caminhada até o local onde o corpo seria enterrado, o cão acompanhou o movimento, seguindo as pessoas. Quando colocaram o caixão no solo, antes de enterrá-lo, o bichano pousou suas patinhas sobre o esquife e se pôs a chorar.

A velhinha, que em vida sempre amara a natureza e passava as manhãs observando os pássaros em seu quintal, teve enfim o amigo que a vida não lhe proporcionou.

(Uma humilde homenagem à Luzia, em seu momento de dor)

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