Homo musicalis

Ontem fui num concerto do pianista Arthur Moreira Lima. Até parece coisa de gente muito nariz em pé, né? Mas nem é. Meus conhecimentos musicais são bastante pífios (lembrando de meus amigos sumidos…). Já tentei aprender flauta, piano, dei uma arranhadinha em leitura de partituras e história da música clássica, contudo, não progredi em nada. Para ser músico, há duas opções: nascer com um dom (o que é raro) ou se dedicar ferrenhamente. Eu não tive nenhum dos dois, e acabei desistindo. Isso não quer dizer que eu (assim como todo mundo) não tenha fascínio pela música e não saiba gostar do que é bom.

Digo isso porque ontem, assistindo ao concerto, comecei a me indagar como é fantástico o fato da música ser algo tão universal e importante para os humanos. Apesar de também não dominar muito a antropologia, nunca ouvi falar de um grupo social em que inexistisse a expressão musical. E é altamente estranha a forma como determinados acordes e tipos de sons remetem a certos sentimentos – independente de onde a pessoa tenha nascido e de qual seja a sua formação. Tanto é que a música é altamente explorada nos filmes para que seja transmitida a sensação desejada – experimente ver determinadas cenas de suspense sem o som – muitas delas parecerão imagens quase sem sentido. Afinal, fora de contexto e sem fundo musical, uma pessoa tomando banho ou caminhando num corredor é algo completamente banal.

Arthurzinho, com sua casaca meio amarrotada e seus cabelos brancos e compridos, que só aumentavam o charme da cena, começou tocando clássicos de Mozart e Bethoven. Foi caminhando para Villa-Lobos e Piazzolla, até chegar em compositores brasileiros populares. Finalizou com o hino nacional brasileiro, e no bis tocou Asa Branca – em versões floreadas pelo pianista. Nesse tempo todo, fiquei viajando (também) em como talvez a música seja a melhor forma (se não a única) de se eternizar uma pessoa ou uma época. Porque quando o cara estava lá tocando a Sonata ao luar, era quase como se Bethoven estivesse ali, e pudéssemos nos conectar com todo o sentimento do compositor, que se transcendia. A música era a ponte que me unia a Arthurzinho e a Bethoven – e a todos que naquele momento compartilhassem dessa comunhão.

Cheguei à conclusão de que talvez não sejamos Homo sapiens. Talvez a melhor designação para os humanos seja Homo musicalis. Porque parece que a música fala (e faz) muito mais do que toda a sapiência que possamos ter…

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