O mundo do cientista maluco

Para a maioria das pessoas o mundo acadêmico da pós-graduação e da pesquisa é algo totalmente fora da realidade, especialmente quando envolve as áreas de ciências básicas como biologia, física e química. Isso acontece porque o mundo acadêmico da pós-graduação e da pesquisa É algo totalmente fora da realidade das pessoas, digamos, “normais”.

Primeiro, porque o estudante de mestrado ou doutorado destas áreas normalmente não “trabalha” – apesar de ter muito trabalho, o que ele faz é considerado meramente parte de sua formação. Como a maior parte dos cursos de pós-graduação (das ciências básicas)  têm cargas horárias que dificultam a conciliação com um emprego padrão de 40 horas semanais, quase todos os alunos dependem de bolsas de estudo para sobreviver. Claro, é ótimo ser pago para estudar. Mas não funciona de forma tão simples. Você termina a graduação com uns 22 anos, em média. Se for fazer mestrado e doutorado, acrescente aí mais uns 5-6 anos: 28 anos até completar seus estudos (isso se a pessoa passar nas provas de admissão de primeira, e se não fizer pós-doutorado). E durante este período, se você for cumprir com as exigências da bolsa, tem que ter dedicação exclusiva ao seu estudo/pesquisa (ou seja, não pode ter nenhum outro emprego) durante 40 horas por semana. Sem garantia de férias (que dependem da liberação do seu chefe/orientador) e sem contribuição para a previdência e contagem de tempo de serviço. Apesar do nível de exigência das normas variar conforme cada lugar (e chefe), é provável que você muitas vezes ainda tenha que trabalhar durante feriados e fins-de-semana, porque certos tipos de experimentos demandam acompanhamento contínuo – células, camundongos, reações químicas e máquinas não acompanham o calendário e o relógio…

Segundo, porque a qualidade das instituições e cursos de pós-graduação são avaliadas (entre outras coisas) pelo número e pelo impacto das publicações que as pesquisas geram. Assim, aqueles realmente interessados em crescer e fazer algo de qualidade entram numa espécie de “corrida maluca” para alcançarem o topo e serem reconhecidos. No modelo existente, em que os estudantes são a mão-de-obra (estão fazendo a pesquisa, “na bancada” como diz o jargão da área), e os professores/orientadores ficam apenas na parte logística de conseguirem financiamento e organizarem as pesquisas, isso frequentemente se traduz em chefes-orientadores mandões e autoritários, e em estudantes estressados, deprimidos e cansados.  Há os estudantes que ligam o “foda-se” e vivem muito bem, obrigado, felizes com qualquer coisinha que conseguirem fazer, sem precisarem se dedicar ou se estressar demais. No entanto, pelo próprio perfil de quem entra numa pós, a maioria deles fica bem ensandecido: nunca há tempo para acompanhar toda a literatura, sempre há mais um experimento por fazer (pois muita coisa dá errado, tem que ser refeita), sempre tem um grupo estrangeiro (com mais recursos) que pode publicar na sua frente e pôr tudo a perder, os prazos estão sempre apertados não importa o que você faça, e tem sempre um furo/problema nos seus resultados que você não consegue solucionar e que te tiram o sono…

Acho que eu nunca vi tanta gente com dificuldade pra dormir e tomando anti-depressivo quanto numa pós-graduação… É por isso que cientista tem a fama de maluco.

Big Bang Theory: Sheldon fica loucaço (mais um pouco), não consegue dormir e invade um parque infantil, na tentativa de conseguir a resposta para seu problema científico…

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