Vida artificial?

Eu deveria escrever sobre coisas mais universais e engraçadas, que são aquelas que fazem as pessoas visitarem o site, mas ultimamente meu humor não está muito aguçado, e ando de saco cheio de tudo que aparece na música, na TV, no cinema… Então, vou falar sobre o meu pequeno mundo nerd científico mesmo.

Essa semana um grupo de cientistas produziu o que está sendo chamado de primeira “vida artificial”. Preguiça gente, muita preguiça…

Os caras tiveram um trabalhão danado para sintetizar artificialmente em laboratório o DNA de uma bactéria, e “transplantar” este genoma numa bactéria de outra espécie (mas que é “parente” da primeira). A sequência de DNA sintetizada já era conhecida, e pertence ao genoma de uma bactéria que existe na natureza. A novidade nesta experiência, na verdade, foi pouca (apesar de ter dado muito trabalho). O que eles fizeram foi aprimorar técnicas que já existiam, para conseguirem produzir e transplantar moléculas de DNA maiores do que aquelas que são produzidas e transplantadas até o momento.  Mas a padronização destas técnicas aprimoradas permitirá, no futuro, a confecção de genomas “montados” em laboratório, que codifiquem características de interesse de organismos de diferentes espécies num único organismo, produzindo indivíduos moldados para atender a interesses específicos: por exemplo, produzir medicamentos e degradar poluentes (como o petróleo derramado nos oceanos), de forma que estes novos seres consigam sobreviver em condições de adversidade em que a maioria dos organismos “naturais” não conseguem suportar. Todo organismo geneticamente modificado, entretanto, deve conter uma “marca d’água” molecular que indique que aquele ser foi produzido ou modificado em laboratório, e de preferência, ele deve ter também algum mecanismo que o impeça de de sobreviver fora das condições para as quais ele foi elaborado – e assim diminuir as chances de que o meio ambiente seja contaminado pelos novos seres e de que eles acabem suprimindo a diversidade natural existente. Para a utilização destes organismos é necessário um rígido controle de biossegurança, e nem sempre o seu uso será liberado ou autorizado – ainda que à primeira vista pareça ser algo promissor, como não sabemos exatamente como eles se comportarão no ambiente, tudo tem que ser altamente monitorado e avaliado antes de se tornar realmente um produto comercial.

O que me dá preguiça não é a notícia da pesquisa, mas a discussão boba e vazia que se dá em torno dela. É um blablabla idiota sem fim, de “vida artificial”, “mundo sem deus”, “o poder do homem” e sei lá mais o que, que não acrescenta nada a ninguém. Discutir bioética e biossegurança, tudo bem – é  necessário para fazer com que as novas tecnologias sejam o mais seguras possíveis e sejam usadas para o “bem”. Entretanto, questionamentos pseudofilosóficos e existenciais servem apenas para confundir a cabeça das pessoas que não têm muito embasamento e dificultar a continuidade das pesquisas.

Eu, pessoalmente, apesar de achar que o desenvolvimento científico é necessário, sempre vejo com algum temor certas novidades – porque apesar de terem aplicações úteis, muitas delas podem ser usadas para fins questionáveis, ou perderem o controle, se nas mãos de pessoas de interesses e/ou qualificação duvidosos. Tanto que boa parte dos filmes de ficção científica (que eu adoro!) foca justamente estas questões e fazem a gente avaliar até que ponto a ciência é ética, especialmente quando se mistura com a loucura desenfreada de cobiça econômica e de poder.

O filme Blade Runner: vida humana artificial da ficção ainda está muito longe de existir

Apesar de todo o avanço tecnológico, ainda estamos muito distantes de fazermos clones humanos e de criar uma vida totalmente artificial: por enquanto, a vida artificial de que estamos mais próximos é de vírus (para quem os considera vivos) e bactérias, e para produzí-las em escala industrial serão necessários ainda alguns anos, na melhor das hipóteses. E tenho certo que o homem jamais será deus (se é que há um deus). Porque os cientistas podem vir a dominar todas as ferramentas que geram uma vida, e até reproduzí-la artificialmente. Mas a compreensão do que levou todos os fatores inerentes à vida a espontanemente se combinarem um dia no passado remoto, e a evoluírem para produzir o mundo vivo que conhecemos, permanecerá, eternamente, um formidável e lindo mistério.

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