A nossa impotência, a nossa vulnerabilidade

Ontem, eu voltava para casa com minha irmã, ela dirigindo o carro, quando aconteceu algo que me deixou mal demais. Plena tarde ensolarada de sábado, estávamos paradas no sinal de trânsito, não muito longe de nossa casa, um carro a nossa frente, e uma moto na lateral direita desse carro. Chega uma moto com dois caras, que para um pouco à frente da outra. O da garupa rebate a placa da moto, e antes que eu tivesse tempo de abrir a boca para falar com minha irmã “que coisa esquisita, por que esse cara fez isso?”, ele tira a arma de suas partes íntimas, e aponta para o homem da primeira moto. Este, que estava tranquilo e distraído, parece não compreender bem do que se trata, e demora a agir de acordo com a exigência do assaltante. E a gente assistindo tudo, como se o para-brisa do carro fosse uma tela de cinema. Eu agoniada, querendo fazer algo, mas sem poder – qualquer reação mal calculada poderia colocar em risco minha própria vida e a de todo mundo que estava ali. Tudo que fiz foi repetir algumas vezes “que ódio, que ódio!”. Nesses poucos segundos, o sinal abre, e eu pra minha irmã: “vai logo”. Algum tempo depois, as duas motos (agora, cada uma com um dos assaltantes), passam por nós, e desaparecem.

Espero que o cara tenha ficado bem – pelo menos, não ouvi nenhum barulho de tiro. Tinha um bar em frente ao local, provavelmente eles ajudaram o moço e chamaram a polícia. Conto com isso, para aliviar minha consciência de fracote medrosa – porém, infelizmente, nessas horas normalmente o que prevalece é  o instinto de auto-preservação (que é uma das coisas que permite que nossa espécie exista até hoje).

Felizmente, eu nunca sofri um assalto. Mas ano passado levaram meu carro: minha irmã dirigindo, minha mãe no carona: o cara, também armado, rendeu as duas e deu sumiço no Palio, que ainda ia demorar dois anos pra eu terminar de pagar. Eu tinha seguro, contudo, nada paga o sentimento de impotência, de medo e de afronta que fica. Minha mãe, especialmente, demorou alguns meses para se recuperar do trauma – e pra falar a verdade, nem sei se foi uma recuperação completa.

E a gente fica sem saber o que fazer. No caso do meu carro, a polícia chegou ao local, e nem desceu da viatura. Minha irmã teve que fornecer os dados para o B.O. como se fosse uma prostituta dando os preços pro cliente, se inclinando pela janela. E eles nem se deram o trabalho de pelo menos fingir que iam procurar o automóvel. Eu tenho pra mim que na região onde moramos essas coisas só acontecem porque os ladrões são acomunados com a polícia.

Sei que nem todos os policiais são corruptos, e sei que eles ganham muito pouco para fazer um trabalho tão arriscado e estressante. Mas enquanto a instituição não se livrar das pessoas que sujam seu nome, e não houver seleção e treinamento mais rigorosos,  o serviço vai continuar sendo mal feito, e o reconhecimento vai permanecer aquém do necessário.

Tenho uma ponta de esperança ao ver que as coisas podem estar mudando. Nessa última semana, em diferentes casos, policiais foram indiciados ou repreendidos por serem corruptos. Tomara que não seja apenas porque estes casos envolviam pessoas públicas ou “importantes”…

Ainda que a ação da polícia seja fundamental para diminuir a violência e as contravenções, principalmente atuando de forma colaborativa e conjunta com a comunidade, localmente; somente políticas públicas de maior âmbito podem conter os grandes criminosos que subsidiam a existência dos menores. Isso, entretanto, requer enorme vontade política, além de exigir que as pessoas no governo não sejam as mesmas que subsidiam e se acomunam com os crimes (que é o nosso cenário atual). E talvez, mudar as leis que dão direitos demais aos criminosos. Como um homicida pode ter direito de sair da prisão depois de cumprir apenas uma pequena parte de sua pena? Como os registros de condenação são apagados apenas 2 anos após o cumprimento da pena? Tudo bem, que sou a favor de um sistema prisional diferente do atual, de preferência um que forneça mais educação e oportunidade para os detentos ao invés de ser apenas uma escola de bandidos. Porém, bandido é bandido, e tem que responder por seus atos hediondos. Gostei da ideia de Eduardo Almeida Reis, cronista do Estado de Minas, que sugere a “compatibilização dos códigos e penas com a realidade nacional”.  Ele indica que “agentes que cometam crimes de certa gravidade sejam condenados a 1000 anos de reclusão, merecendo o favor de cumprir a pena em liberdade se tiverem bom comportamento nos primeiros 10%”. Acho que 100 anos de aprisionamento devem ser suficientes para o camarada pensar e aprender a não fazer bobagem, não é mesmo?

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