Crônica de uma morte assentada

Dagoberto chegou no apartamento novo do amigo. Coisa fina. Cobertura, quatro suítes, no bairro mais chique da cidade. Fazia alguns anos que ele não se encontrava com o Gerônimo, que arrumara esposa e se casara em Pindamonhangaba, na época em que vivia viajando como representante da empresa em que trabalhava. Agora, ele estava de volta, e finalmente Dagoberto conheceria a família do grande amigo de sua infância.

Solteirão convicto, Dagoberto foi sozinho, como sempre. Chegou à portaria, e após algumas perguntas do porteiro, umas conversas no interfone, ele foi autorizado a entrar. Pegou o elevador, que só faltava recitar poemas em alemão de tão sofisticado, e subiu rumo ao palacete suspenso. Foi recepcionado por uma daquelas empregadas de novela do Manoel Carlos, com aquele negócio branco esquisito pendurado na cabeça (alguém sabe pra que serve aquilo?), mas o vestido dela era bem mais recatado e de maneira alguma incitaria as fantasias sexuais típicas das novelas. “Fique à vontade, Dr. Gerônimo e Dona Cici já estão a caminho”. Putz, a casa devia ser maior do que ele pensava, porque parecia que o trajeto da suíte master até a sala de estar era longo o suficiente para ser um “caminho” que demorasse tanto. À vontade não foi bem como Dagoberto se sentiu naqueles longos minutos, e somente quando os donos da casa chegaram foi que ele percebeu que havia permanecido parado em pé exatamente onde estava quando chegou, tudo porque morria de medo de quebrar algum dos inúmeros cristais e esculturas que decoravam a sala de estar.

“Dadá!”,”Gegê!”, “Há quanto tempo!!!”. Abraços, soquinhos, e toda aquela palhaçada que a gente faz quando vê um amigo do passado. “Quero te apresentar minha esposa, a Cici”, “Muito prazer”, “Igualmente”… A mulher chegou montada, carregando um cachorro, e estendeu a mão para Dagoberto beijá-la. Sem saber o que fazer, ele sacudiu profusamente o braço da dona, causando um abalo sísmico no topete, que só não caiu porque o laquê era francês. Cici era filha de um descendente dos antigos barões do café, que após um período de certa decadência recuperara a pompa estabelecendo uma rede de turismo rural de grande sucesso por todo o Brasil, já que as crianças de hoje acham que o leite vem da caixinha, e não da vaca – o que dá um status de circo bizarro ao que antigamente se chamava “passar as férias na casa da avó”. A mulher tratava o cachorro como se fosse o próprio filho (para suprir o vazio, já que os filhos passavam a maior parte do tempo na distante suíte 3, junto com as babás). Bambam era o xodó da casa. Porque ai! de quem não fizesse as vontades do canino: Cici virava fera! Então, todos viviam em função do cachorro, e tratavam-no como membro da família.

Sentaram-se à mesa, e foram direto ao jantar. Após muitos pratos, todos deliciosos (que Bambam também aprovara, sentado no colo de sua dona), Dagoberto foi convidado à sala de charutos para tomar uma bebida digestiva e experimentar pela primeira vez… um charuto. Ainda pouco à vontade, escolheu a ponta de um sofá para sentar-se, quando foi advertido: “não,não,não!!!! aí é o lugar onde Bambam escolheu para diariamente fazer sua sesta!”. Sem saber o que fazer, preferiu ficar em pé mesmo, enquanto o cachorro tomava seu lugar. Dagoberto bebericava um vinho do porto, e Gerônimo preparava o charuto. Cici se recolhera a seus aposentos para “refrescar sua beleza e deixar os senhores resolverem seus assuntos”. “Não encontro o isqueiro”, disse Gegê, “vou procurá-lo lá dentro”. Neste momento, Dagoberto, sentindo-se aliviado, pôde ficar à vontade para abrir o botão da calça e recostar-se no sofá após tanta comilança. Sem que percebesse, lançou seu corpanzil sobre a chaise long, aterrissando justamente sobre… Bambam! Somente ao ouvir um “Caim!” abafado, seguido de silêncio, se deu conta do que havia feito. Levantou desesperado, e percebeu que era tarde. O cachorro, imóvel, língua mole para fora da boca, não mais respirava. Sacudiu, sacudiu, e nada. Desesperado, ao ouvir o amigo se aproximar dizendo “encontrei!”, lançou a prova do crime pela janela. Gerônimo ia explicando que aquele isqueiro era de uma edição limitada de um modelo muito caro vendido na Áustria no século XIX e que deveria valer um bom dinheiro. Dagoberto, tenso, tentava aparentar normalidade. Despretensiosamente, o amigo indaga: “uai, cadê o Bambam?”. Dagoberto, sem pensar muito, diz: “sabe que não sei? nem percebi ele sair…”. Gerônimo, estranhando a ausência do cão, que nunca saía de sua rotina, começou a chamar por ele. Dona Cici, que parecia ter um radar, já veio gritando “o que aconteceu com meu Bambam?”. “Acho que ele sumiu”. Aí a mulher desmaiou, as crianças apareceram do além, chorando, e começou uma confusão tão grande que Dagoberto não sabia nem explicar mais o que estava acontecendo.

De repente, toca o interfone, e a empregada, desesperada, grita: “tão dizendo que viram o cachorro voando pela janela, e que ele tá estatelado lá na portaria!”. Tudo se silencia, e os olhares todos voltam-se para Dagoberto. Ele sai correndo, e se lança pela janela, a mesma por onde Bambam fora lançado.

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Por um milagre, naquele momento, passava na rua um caminhão carregado de pipoca Aritana, sobre as quais Dagoberto caiu, e que acabaram amortecendo sua queda. Tudo bem, que ele deve ter batido a cabeça com força, porque foi acordar numa cidade as uns 300 km de onde estava. Contudo, estava vivo. E por sorte, Gerônimo não sabia onde ele morava, e nunca mais deu notícia. Mas, só por precaução, Dagoberto apagou seu Orkut e seu Facebook.

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Dedicado a Diana, que contou o “causo” que inspirou essa crônica.

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