Espelhos, de Eduardo Galeano

Eduardo Galeano é mais conhecido pela temática política, com histórias da época da ditadura militar na América Latina, especialmente “As veias abertas da América Latina”. Apesar de não ter lido o mais famoso livro do autor uruguaio, sou fã da obra de Galeano, e estreei com “Dias e noites de amor e de guerra”, seguido de “Vagamundo”, “Livro dos abraços”, e dos mais novos “Bocas do Tempo” e “O teatro do bem e do mal”.  Recentemente terminei de ler “Espelhos – uma história quase universal”.

O que mais gosto em Eduardo Galeano é o fato dele escrever textos curtos, porém de conteúdo profundo e lírico, sempre entremeados de muita história. Ele tem o dom de nos apresentar grandes verdades, que às vezes, ainda que óbvias, não conseguimos (ou preferimos não) enxergar. É impressionante a bagagem cultural e histórica que este homem traz, e como ele conhece tão bem as falhas e grandiosidades humanas, a ponto de transformar algumas linhas escritas em prosa em pequenas jóias poéticas. E além de tudo, é excelente fonte de informação, já que as raízes do autor estão no jornalismo.

Quando fui num congresso em Montevidéu, eu andava pelas ruas antigas da cidade pensando neste senhor, tentando ver a cidade com os olhos de um de seus filhos mais nobres – e torcendo para cruzar com ele em alguma esquina, para poder felicitar-lhe (provavelmente, ainda que isso acontecesse, eu não o reconheceria…).

Vou deixar um dos textos de “Espelhos”, que num passeio histórico narra desde contos mitológicos da antiga Grécia, até a realidade contemporânea. Excelente.

O imposto global

O amor que passa, a vida que pesa, a morte que pisa.

Há dores inevitáveis, e é assim mesmo, e não tem jeito.

Mas as autoridades planetárias acrescentam a dor à dor, e ainda por cima nos cobram por esse favor.

Em dinheiro pagamos, a cada dia, o imposto do valor agregado.

Em infelicidade pagamos, a cada dia, o imposto da dor agregada.

A dor agregada se disfarça de fatalidade do destino, como se fossem a mesma coisa a angústia que nasce da fugacidade da vida e a angústia que nasce da fugacidade do emprego.

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