As pessoas (1) – a invasão do meu silêncio

Sempre fui meio antissocial. Mas sou sociável, por mais contraditório que isso seja. O fato é que, viver em comunidade, em sociedade, é algo altamente estressante e desgastante. Porque a gente é simplesmente obrigado a conviver com pessoas com as quais não temos absolutamente nada a ver, e que fazem coisas que execramos totalmente.

Não sei se ando com algum problema. Ultimamente tem sido ainda mais difícil aguentar os outros seres humanos à minha volta. É tanta gente invejosa, folgada, mentirosa, preguiçosa, fofoqueira, metida, desrespeitosa e ruim de serviço que fico impressionada. Tenho exercitado meu lado zen-budista pra conseguir evitar que eu seja protagonista de “Um dia de fúria”.

Vou fazer uma lista de coisas que têm me irritado, começando com:

(1) – A invasão do meu silêncio

Eu chego em casa. É sexta à noite. Tudo o que quero, após uma semana de trabalho, é me jogar no sofá e ficar cochilando embolada com meu cachorro enquanto finjo que vejo televisão. Vou abrir a porta, e ouço música bem alta vindo lá de dentro. “Estranho”, penso, “ninguém lá em casa gosta de sertanejo…” Abro a porta. Olho para o aparelho de som – está desligado. Aquele barulho vem lá da rua. “Merda. É ele”.

Tem um cara que toda sexta-feira para o carro numa rua próxima de onde moro, em frente a um bar. Liga o rádio num volume ensurdecedor. É sempre sertanejo o que toca. Durante horas. Normalmente, de 18 às 22, no mínimo. Minha vontade é de aparecer lá com um taco de baseball, quebrar o carro dele todo, e gritar feito uma maníaca. Porém, temos que ser “boas pessoas”. Neste caso, isso significa arrancar meus cabelos e esmagar meu cérebro contra a parede enquanto tento ouvir minha própria voz disparando impropérios que ele, infelizmente, nunca vai ouvir. Porque eu tenho que ser “compreensiva” e aceitar que um corno com dor de cotovelo tem o direito de expressar sua dor lancinante de forma que o bairro inteiro escute.

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Madrugada. Durmo. Sono cortado. Passa um carro, inicialmente de longe. Efeito Doppler. Batidão. Frases impronunciáveis. É um funk. Parece uma galinha choca gritando. E vai aumentando. Explodindo a caixa. E vai diminuindo.  Efeito Doppler. Mas lá se foi meu sono.

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Vão me chamar de preconceituosa. Não sou. É conceito formado mesmo. Por que não se ouve uma Nona Sinfonia, um Jazz, uma MPB tocando incessantemente às alturas? Ouvintes de funk e de sertanejo são, em sua maioria, pessoas folgadas e sem noção. Quero que se explodam todos. Em combustão espontânea.

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Isso que nem falei da serralheria que em pleno feriado azucrina meus ouvidos com “Tzéms” sucessivos às 7 da manhã; do carro de som do político besta que usa o dinheiro roubado de sua “ONG” para fazer campanha, passando a cada 10 minutos com um jingle melequento; nem do vizinho alcoólatra que chega sempre xingando (de língua enrolada) um tal de Roberto Carlos que até hoje não descobri quem é (o jogador?o cantor?)…

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Meu ouvido não é penico, mas tá cheio de bosta. Não posso contar nem com a paz serena do silêncio.

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