O politicamente correto

Às vezes as pessoas surgem com formas deturpadas de compreender o mundo e de educar. Semana passada o Conselho Nacional de Educação me apareceu com uma dessas: excluir um livro de Monteiro Lobato, que conteria trechos racistas, dos programas de educação do governo – abrindo brecha para que outras obras sejam também “banidas”.

Dificilmente será possível encontrar uma obra (literária, cinematográfica, teatral, musical e até científica…) que seja totalmente isenta de preconceitos. Obviamente, há aquelas que doutrinam o preconceito (como Mein Kampf, de Adolf Hitler). Contudo, a maioria teria apenas alguns traços, normalmente relativos a conceitos errôneos ou formas de pensar que caracterizavam o grupo social e/ou a época do autor da obra. O fato é que esse tipo de censura, por mais que venha agarrada ao véu do “politicamente correto”, só tem a prejudicar a educação – ao contrário do que julgam seus defensores.

Aliás, coisa que me irrita é o tal do “politicamente correto”. Pois quem é que sabe o que é realmente o correto? Claro, precisamos de leis e normas para que as pessoas consigam viver sem que umas matem ou prejudiquem  as outras, mas nos aspectos científico e cultural, ao contrário do econômico-político-social, isso é extremamente relativo. Vejam: até o século XIX, a escravidão era considerada algo normal e correto no mundo ocidental (uma questão cultural, que teve respaldo no econômico-político-social).  No mundo contemporâneo há sociedades que praticam a mutilação genital feminina (e ainda que haja pessoas lutando contra isso, há muitos que são a favor)… Alguém duvida que estes sejam exemplos de atrocidades, mas que foram ou são bem aceitas apesar disso? Os pontos de vista podem divergir com o tempo e o lugar.

A censura me parece errada e me incomoda não pela sua intenção – preconceito (apesar de todos o termos em algum nível) deve ser evitado – mas por ser uma tentativa distorcida e errada de tentar sanar um problema. O banimento de um livro prejudica a educação por vários motivos. Primeiro, por dificultar a liberdade de expressão. Também, porque suprime a diversidade. E principalmente, porque não é através da ignorância que se ensina o que é o certo. O mundo está cheio de coisas “feias e ruins” (para utilizar um tom mais infantil). Privar as crianças de conhecer estas coisas não vai fazê-las ficarem imunes ao mal. Pelo contrário: só aumenta as chances de que elas o pratiquem ou sejam vítimas dele.

Essa onda do politicamente correto, pra mim, é de quem não faz direito e quer tirar o seu fora. É óbvio que há idade propícia para apresentar cada tipo de conceito e/ou ideia às crianças, mas também não adianta colocá-las numa redoma. O que é fundamental é dar bons exemplos, e ensiná-las a pensar criticamente, para que não aceitem qualquer coisa que veem ou leem por aí. Tarefa difícil, mas possível. Se fosse dar ouvidos aos politicamente corretos, era para eu ser uma troglodita matadora de animais inocentes, visto que durante toda minha infância ouvi os disquinhos coloridos com aquelas cantigas de roda de letras loucas da nossa cultura popular (que eu adorava e adoro). Ô raiva que me dá quando ouço a nova versão de “Atirei o pau no gato”!  (Pra quem nunca ouviu: “Não atirei o pau no gato-to-to/ Porque isso-so-so/Não se faz-az-az/O gatinho-nho-nho/É nosso amigo-go-go/Não devemos maltratar os animais!”). Ou era para eu ser uma serial killer, já que gostava de jogar vídeo-games de lutinha! Qualquer criança bem instruída sabe que não se deve atirar o pau no gato ou bater nas pessoas – apesar de nas brincadeiras falar ou fazer isso. Convenhamos: dá pra ensinar o correto sem pedantismo. E esse povo ainda vem com aqueles argumentos que confundem causa e efeito, dizendo que, por exemplo, “o menino que matou metade da escola com a metralhadora era fã do filme X – portanto, o filme X faz os meninos matarem as pessoas!”. Quantos outros meninos eram fãs do filme X e nunca pensaram em atirar nos seus colegas de escola? É, a culpa é mesmo dos filmes, dos livros, das músicas… E não da nossa educação falha.

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