O sistema de saúde brasileiro

Não ia escrever sobre isso, já tinha até começado um outro post, mas aproveitando que na última semana divulgaram a pesquisa do IBGE sobre o sistema de saúde, e que eu tive que “fazer uma visita” a um PS, resolvi mudar de assunto.

Eu tenho plano de saúde, e sempre me senti privilegiada por isso. No Brasil, isso é uma necessidade, porém, poucos podem pagar. Entretanto, até mesmo as pessoas “privilegiadas” com um plano de saúde têm passado por dificuldades na hora de terem acesso aos serviços. Onde já se viu, ter que marcar uma consulta com até seis meses de antecedência por falta de horário do médico? Pois é, isso tem acontecido, e não é no SUS. Agora, a gente tem que ter data marcada até pra ficar doente.

E não para por aí. Como disse, de domingo pra segunda fui parar no hospital. Arrumei uma gastroenterite viral que quase acabou comigo. Desidratei muito rápido, quase desmaiei – vomitando e cagando sem fim. Detesto ir pro hospital, mas se eu não fosse me hidratar depressa, acho que ia entrar em choque. Aí, fui pro pronto socorro de um centro de saúde considerado  bem conceituado, aqui em Belo Horizonte. Minha mãe foi comigo, porque eu mal conseguia andar. Apresentamos a carteirinha do plano de saúde, preenchemos a ficha (e eu vomitando…). Aí a moça vira e fala: “desce a escada, que é lá embaixo”. OK, eu ainda conseguia andar, mas zonza do jeito que eu estava, corria o risco de cair e ainda levar minha pobre mãezinha junto comigo escada abaixo. A indivídua nem pra falar onde ficava o elevador e oferecer uma cadeira de rodas – e como na hora do desespero a gente quer mais é resolver logo as coisas, preferi não reclamar. Lá, a enfermeira simplesmente manda a gente sentar e esperar o médico. Tá, eu sei que não tem um médico pra cada pessoa, mas ela podia pelo menos ter me dado um saco de vômito (que eu fui descobrir que existia bem mais tarde, quando já estava quase tendo alta), e ter me colocado mais próxima do banheiro, uma vez que eu estava praticamente cagando e andando (no sentido literal da expressão). Depois de um tempo, a moça avisa que o médico chegou. A gente teve que adivinhar qual era o consultório. Ele faz as perguntas básicas de anamnese, aperta a barriga, mede a pressão. Muito secamente, não fala nada além de que vai pedir um exame de sangue, e de que é pra tomar uns remédios e soro – e esperar as duas horas do resultado do exame pra ver o que vai fazer. As enfermeiras, nem de longe lembram aquela solicitude e cordialidade dos filmes. Vão lá, enfiam uma agulha na sua veia, e é isso. Eu tilintando de frio, como se estivesse no gelo polar, e tive que pedir pra ela me dar algo pra cobrir. Elas ficavam lá rindo e conversando entre elas, falando o que pintaram e bordaram no fim-de-semana, e mal olham pros pacientes. Tinha uma senhora lá, urrando de dor, o filho desesperado, pedindo pra chamar um médico pra olhar, e elas com aquela cara de cu universal, se limitando a dizer que já haviam chamado o “doutor”. Olha, o homem demorou um século pra chegar. E  nem era o mesmo médico do início da madrugada – tudo bem trocar de médico, eles têm os plantões e tal, mas seria de bom grado avisar os pacientes e apresentar o novo médico na troca de plantão (e nas quase 10 horas que passei no hospital, foram 3 médicos  – a gente nem sabia quem tinha que chamar caso precisasse de algo, de repente surgia alguém diferente). Bom tem mais um tanto de coisa que eu reparei nessa minha “saga”, mas já tá ficando cansativo, então vou ficar por aqui na minha descrição.

 

PAUSA PARA DESCANSO.  CONTINUE APÓS A LINHA PONTILHADA.

 

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Fiquei com muito medo e muita dó de quem depende do SUS para se tratar. Porque apesar do atendimento não ser o mais exemplar, pelo menos eu tive uma vaga no hospital, que era razoavelmente limpo e bem equipado.

Contudo, eu acredito que o problema mais grave é o modo como a maioria dos profissionais de saúde (sejam do SUS, sejam do sistema privado) têm trabalhado. A questão de investimento financeiro é crucial. Pois tanto no SUS quanto nos particulares, o efetivo é baixo para a necessidade – o que faz com que os profissionais, que já têm um trabalho cansativo e estressante, sejam submetidos a jornadas longas demais, e acabem não se portando da maneira mais adequada.

A formação dos profissionais de saúde também me preocupa. Especialmente a dos médicos. Ultimamente, vejo os universitários de medicina preocupados apenas com status e dinheiro (e em beber a próxima cerveja). São poucos os que têm um verdadeiro interesse no paciente. Além disso, a maioria quer apenas as especialidades “chiques”, de cirurgião e dermatologista, por exemplo. Clínicos gerais, pediatras, obstetras são cada vez mais raros. No programa de saúde da família, do governo, a escassez de profissionais não é apenas pelo baixo salário pago e pelas condições de trabalho: é porque quase ninguém quer falar pro colega que tratou uma bicheira, uma DST, pereba e verminose. É muito mais chique dizer que fez o peito da famosa fulana de tal, ou que operou um câncer cerebral de grau 3 (se é que isso existe, tô inventando agora). Sendo que o Brasil precisa mesmo, é de medicina básica e preventiva séria.

E, eu não sou de entrar em questões politiqueiras, porém, de forma geral, os governos brasileiros nunca foram de investir em saúde. O último governo, apesar dos avanços em outras áreas, deixou muito a desejar nessa parte. Vários hospitais que não eram públicos, mas que atendiam pelo SUS (e portanto, atendiam às populações mais carentes), fecharam ou diminuíram número de leitos após o repasse de verbas do SUS ter sido cancelado com a justificativa de “falta de necessidade”. Uma manobra para fazer o cidadão constar como mais um “beneficiado” do programa de saúde da família, dos postos de saúde e demais unidades e programas do governo. Até aí, tudo bem – se estes programas e unidades realmente funcionassem. No fim, o que temos é que o cidadão está cada vez mais mal atendido, mas virou uma estatística bonita… E quem não está no SUS, está nas mãos dos planos de saúde: cada vez mais caros, com cada vez mais clientes, e com um efetivo que não dá conta de tanta gente (ou que não quer atender o paciente porque, segundo os médicos, pagam pouco).

 

Para quem quiser saber mais sobre a pesquisa do IBGE:

http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1757&id_pagina=1

 

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/ams/2009/default.shtm

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