Jesus, do mito ao homem – de Renarde Freire Nobre

Jesus, do mito ao homem

A dogmática eclesiástica intermediou a comunhão com Cristo. Institucionalizou aquele que desejava ser incorporado numa aliança ativa e vital fundada na ação – e não no rito

Renarde Freire Nobre  
 
 

Jesus talvez seja uma das personalidades mais conhecidas e mal compreendidas da história. Não sou especialista, mas sei que há diferentes maneiras de significar e dar sequência à pessoa do profeta e suas mensagens. Qualquer interpretação dos textos “sagrados” está fadada a se apoiar em pressupostos e preferências. Como toda herança cultural, o cristianismo não vingou por desígnios superiores, e sim por impulsos e astúcias humanas, carreando interesses, desvios e esquecimentos. Pode, pois, conter equívocos sobre a natureza do amor de Jesus, distorcendo aspectos do simbolismo original. Um filósofo ironizou, escrevendo que o único cristão que existiu morreu na cruz.
A arte de falar por símbolos e alegorias, ao gosto de Jesus – para se proteger, para não ser banalizado, para seduzir –, favorece as nuances interpretativas. E o fato de não se dispor de provas materiais diretas, mas de narrativas dos atos e das palavras do mestre por parte de seguidores mais próximos, torna a discussão a respeito do seu legado ainda mais livre. O Novo Testamento tem uma dimensão de “segunda voz”, a qual, por mais uníssona que possa parecer, se divide em tempos, tons e estilos, conforme o apóstolo, o que aumenta o alerta sobre os riscos de extrair uma dogmática ou localizar a essência. Não há ali “a” verdade, até porque há crença demais em milagres. Nem sequer podemos ter certeza absoluta da existência de Jesus, por mais presumível que ela seja. Todavia essa polêmica é supérflua. O homem, real ou imaginário, fez-se mito com força simbólica sem equivalência, ao menos no Ocidente.
Em meio aos debates e às dissidências, teóricas e práticas, o mito ressoa em um sentido hegemônico bem preciso, por obra dos que sucederam o profeta na “palavra”: a elevação de Jesus ao trono e a glorificação de sua cruz, realçando aspectos como sofrimento, obediência e imortalidade. Contudo, outros olhares sobre o homem, sua vida e seus valores podem se desviar da tônica dominante e suscitar ênfases diferenciadas, sem que eles se arvorem mais verdadeiros. Aqui, em especial, um olhar que busque resgatar do mito o homem.
Jesus não foi um pastor, menos ainda uma pessoa de igreja. Foi um desafiador que, por conta da sua origem e da natureza das suas ideias, ganhou feições de provocador abusado e perigoso. Todos conhecem a máxima basilar “amai ao próximo como a si mesmo”. Se nos fixarmos no que nela há de mais substancial, que é o abandono dos anseios de vingança, inveja e competição, veremos que o mandamento contém um chamado à plenitude anímica. Jesus, então, afirma que cada um pode realizar o Reino de Deus no coração, fazendo-se espírito pacífico e bem-aventurado. Mas o que isso contém de estranho ou perigoso?

A “LEI”
O estranhamento é radical. Colocam-se em tensão duas ordens de valores incompatíveis. De um lado, a nova simbologia trazida por Jesus, focada na ideia do homem pleno em Deus; do outro, os poderes estabelecidos, amparados na obediência à “Lei”, quer da tradição sagrada, quer do império pagão. Ao acentuar o centramento do homem como espiritualidade, Jesus se põe acima da família, da Igreja, do Estado, da nação, do dinheiro, do conhecimento, ou seja, acima do mundo, seus parentescos e seus compromissos. Daí o desafio que ele lançou para que se desligue, em espírito, dos laços sociais se se quer segui-lo; daí as respostas cortantes dadas a Maria, a mãe que sofria; daí a advertência de que não veio trazer a paz, mas a “espada”, ou seja, veio provocar uma ruptura; daí o descaso com a lei do sábado e outros ritos antigos; daí a sua certeza, de difícil assimilação, de que mais vale ganhar a alma do que o mundo.
O que havia de intempestivo em Jesus era o princípio de que a “Lei” devia ser vivida como espiritualidade. Espiritualizar-se é integrar-se em Deus com o coração livre e pacificado. Estar no mundo sem por ele se balizar. Seria a única maneira de “amar ao próximo”, porque é a prisão às ordens do mundo que nos divide e apequena. A tradição dos profetas e os interesses do império não são diretamente combatidos, mas sobre eles se impõe o valor da existência como coerência prática radical. Não se ater às fronteiras, de que ordem for, e não ser refém das polaridades do desejo. Uma alma se escraviza e se deprecia em meio aos apetites e às disputas no mundo. Em Jesus, não se trata tanto de oposição ou luta, mas de separação, em direção ao centro do homem abençoado, condição de autenticidade e plenitude.

O que veio a ser condenado e crucificado foram as atitudes e as ideias esdrúxulas de um homem simples, da plebe, visto como corruptor da tradição e dos costumes. Ao afrouxar as amarras da devoção e da subserviência, desagradou a romanos e judeus. E era inaceitável que um não sábio, um zé-ninguém, reclamasse a distinção de “filho de Deus”. Mas Jesus provavelmente não se autoidentificasse com um insurreto, como eram, em seu tempo, os zelotas. A sua mensagem era avessa ao ódio e à revolta, sem ser frouxa ou indolente, pois ele aparentava plena consciência do peso da sua presença e do incômodo das suas palavras, como quando disse: “Não vim abolir, mas consumar a lei dos profetas”, ou “a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. A “espada” corta, sem alegoria.

Palavras carregadas de valores, mas que não se querem dogmas. Dogma é uma doutrina abstrata que pede cumprimento ritual, exatamente o que Jesus repudiava nos escribas e fariseus. Por isso, ele atrelou a palavra diretamente à ação, ao encarná-las como exemplo de vida. O homem é a escrita do divino. É possível deduzir, então, o quanto a posterior petrificação do poder cristão em Roma conterá de infidelidade, por reforçar a subordinação do espírito ao poder dos sacerdotes e à lei da Igreja, constrangendo a experiência com o dogma, enrijecendo a palavra. A Igreja, como sucessora do Messias e a título de condução das almas, contará com novos escribas e fariseus na comissão de frente.

EGOÍSMO
Imaginemos a vida de Jesus como um enigmático egoísmo espiritualista e uma espiritualidade em ato. A sua justiça emanaria de uma convicção inflexível, uma vontade soberana e irrefreável, que o levou a estimar a sua existência de modo absoluto, a ponto de decretar com total imodéstia: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Não há aqui rastro de subserviência, mas também não é pura prepotência. É mais um transbordamento de si, de alguém que não tinha dúvidas sobre a sua excepcionalidade. Portou-se de modo exageradamente livre, com a potência de uma divindade, antes de ser endeusado. Se ele se deleitava com a liberdade de dizer que sua vida, tal qual a vivia, deveria ser o núcleo fecundo do centramento espiritual, pouco importa. É um vício dos tempos atuais o recurso ao individualismo e ao hedonismo para compreender as vaidades. Por vezes, um egoísmo é mais profundamente destemor irrefletido, intensidade impulsiva, autoconfiança espontânea, a absurda entrega a uma missão.

Externando-se a partir de um espírito medular, Jesus viu o Reino de Deus. Certamente aspirou a ser amado como ser “divino”, mas conforme suas qualidades reais. Então, desafiou: mirem-se em mim e vejam o que vale o homem. E quem assim se vê não poderia ter como medida a busca católica da salvação no além, como também não poderia a devoção evangélica aos negócios privados. Jesus não parece reconhecer a morte ou os interesses como realidades significativas. Ele nada tem do egoísta que suga do mundo, parasitando as melhores oportunidades. Essencial seria a vida plena do espírito abnegado e livre de amarras, pela comunhão com Deus, condição da vida eterna. E quem conhecesse a eternidade em vida não viveria pelo sucesso material, nem se ligaria à morte, nem precisaria conquistar a imortalidade. A boa-nova não estava focada no mundo pós-morte. Não é lá que se encontra Deus, porquanto “Deus não é Deus de mortos, mas de vivos” (Lucas, 20, 38).

CRUCIFICAÇÃO
Imaginemos a crucificação como símbolo de desapego e coragem, o destino do homem posicionado além do ódio e da dor. Quase o oposto do que veio a ser a recepção cristã, com o sofrimento inoculado na alma de modo a manter vivas verdades torturantes, como as de culpa, sacrifício, obediência e castigo. Os ouvidos sacerdotais não foram exatamente os mais fidedignos, para não falar das línguas. Acolheram os símbolos manipulando-os e enviesando-os: a cruz fez-se purificação dos pecados; a obediência dogmática, o caminho da salvação; o Filho, um ser do Além; e o Pai, um justiceiro, maculando-se o Reino dos Céus com a estranha e impiedosa noção do Juízo Final.

A dogmática eclesiástica tratou de sacramentar, reger e intermediar a comunhão com Cristo, entronando e institucionalizando aquele que queria ser incorporado numa aliança ativa e vital, fundada na ação – e não no rito. Homem, atos e ideias foram ajustados em normas e regras, e só persistiram sob acondicionamento e tratamento na estufa sacerdotal. Como resultante, estabeleceu-se distância considerável entre a perspectiva da espiritualidade centrada, que a lição de Jesus inspira, e a conflituosa interioridade cristã, baseada na introjeção do pecado e no exame dos atos e pensamentos na câmara escura da consciência ou do confessionário, a alma acanhada em face de um Deus absconditus ou de um padre em penumbra.

Jesus conformou-se em ser crucificado. Quem sabe o fez não para nos salvar – isso, sim, pretensioso –, mas para afirmar a sua verdade. Devíamos admirá-lo como um homem exemplar tanto quanto rejeitar o culto a ele. Antes dele, Sócrates assumira postura semelhante ao aceitar a cicuta, embora jamais oferecesse a “outra face”. Ao juízo de um grego virtuoso, o “filho de Deus” seria por demais aéreo, tolerante e pacifista. Jesus talvez fosse, ao fim e ao cabo, um megalomaníaco que ousou dizer a sua justiça, e um sonhador que creu na experiência do Reino dos Céus. Ao abolir o fosso entre o divino e o humano, aproxima-se mais do budismo, quiçá do estoicismo ou do sufismo, do que do cristianismo. De todo modo, ideias como as de “culpa”, “temor a Deus”, “castigo” e “juízo final” perdem força quando um homem acredita em si e se dedica à vida que só a ele cabe viver. Mas, assim, o que seria das igrejas?

Renarde Freire Nobre é professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG

 

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s