Redescobrindo a lentidão – Affonso Romano de Santanna

AFFONSO ROMANO DE SANTANNA
Redescobrindo a lentidão
Finalmente estamos descobrindo que velocidade é como cortisona: arma de dois gumes. Boa por um lado, desastrosa por outro. E não há ocasião melhor para pensar nisso que nesta época do ano, que pretende ser uma pausa, mas é correria e aflição.O slow, ou o devagar, está na moda. Bom para os baianos, sobre quem há uma série de piadas louvando-lhes o espírito meio zen. Outro dia, a televisão mostrou que várias pequenas cidades italianas estão descobrindo o que seria o “devagar, quase parando”. Numa delas se criou a Secretaria da Medição do Tempo. Extraordinário. Querem saber quanto tempo desperdiçamos no ir e vir, no transporte de bens e de gentes. Se em vez de duas, três ou quatro horas o cidadão gastar somente meia hora no trânsito, vai ganhar tempo para si. Por isso, estão refazendo até a produção e a distribuição de alimentos. Se um alimento é produzido a quilômetros de distância de nossa mesa, não só sai mais caro, mas terá elementos químicos para conservação. Certa vez, numa cidade alemã provei uma cerveja feita na própria cervejaria. Era uma maravilha. A melhor cerveja que bebi. Não tinha conservantes, era feita para ser bebida ali. Divina.

Desde a revolução industrial, com o navio a vapor e a locomotiva, entramos aceleradamente na loucura da velocidade. Os futuristas louvaram insensatamente a máquina, que deveria substituir o indivíduo. Deu no que deu. Enquanto a publicidade nos tenta com carros velocíssimos e querem nos submergir no jornalismo da velocidade – a notícia em tempo real –, outros estão fazendo a apologia do slow jornalismo. Ou seja, contra a indigestão das notícias indiscriminadas que nos deixam estressados, para nada.

Aliás, hoje em dia, não se vendem exatamente produtos, mas se vende velocidade. Vejam os anúncios. Acabei de comprar um iPad e um iPhone e estou tentando, paradoxalmente, combater essa “velocite”. Há muito tenho combatido o fast reading, essa leitura rápida, vazia e inútil da maioria dos best-sellers que lembram o fast food: o sanduíche informacional, que engorda e pouco alimenta.

A epidemia da velocidade – time is money – pode ser vista na presença de relógios em todas as esquinas e pulsos. E tem gente com inúmeros relógios e diz não ter tempo para nada.
Essa enfermidade atacou a arte. A maioria das obras contemporâneas pode ser exaurida num golpe de vista. São rasas. Basta observar como as pessoas passam depressa nas salas dos museus com obras feitas a partir dos anos 1950.

Proponho como projeto para 2011 redescobrir a lentidão. Ah, o prazer de ler um livro devagar, reler páginas. Ah, o ficar ouvindo um concerto sem pressa, deixar-se ficar diante de um quadro ou diante do mar, à toa, simplesmente olhando – “bobo-olhando”, como diziam as crianças de ontem.

Quando vejo essa correria aflita, esse vaivém formigando nas cidades, tenho vontade de gritar: Parem! Parem de olhar para fora! Olhem para dentro, saiam do espaço! Caiam no tempo!

Não estou mais na Fórmula 1. Estou mais para o jogo de xadrez. Chega da pressa da prosa. Quero a lentidão da poesia.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s