Eu sou um gato – Natsume Soseki

Tava pensando, faz tempo que não escrevo sobre o que ando lendo… Nos últimos meses tenho lido alguns livros de Rubem Alves (O velho que acordou menino, Perguntaram-me se acredito em deus) sempre leve, delicioso e falando tudo o que eu precisava “ouvir”; li “As intermitências da morte”, do Saramago e um livro de um autor japonês, Natsume Soseki, cujo título é “Eu sou um gato”.

Antes que o leitor ache que o último livro é sobre algum jovem narcisista e pretensioso, explico: o personagem principal e narrador do livro é um gato de verdade. Comprei este livro por dois motivos. Primeiro, porque nunca havia lido nada de um autor japonês; segundo, porque o trecho escrito numa das abas tinha muito a ver com meu jeito de pensar a sociedade e os homens:

“Não há nada de mais respeitável que o reconhecimento da própria imbecilidade (…) Falta a meu amo a inteligência de se conscientizar de sua imbecilidade ao se olhar no espelho.”

O livro não chega a contar uma história, apesar de haver um certo fio condutor na narrativa de recortes e situações. A maior parte trata das observações do comportamento humano pelo gato, especialmente a respeito da vida monótona e meio sem sentido de seu dono, um temperamental professor de inglês que sofre de uma espécie de gastrite/queimação intratável .

Confesso que, inicialmente, achei o humor japonês um tantinho estranho, e é engraçado ver como determinadas coisas têm tanta importância numa cultura, enquanto em outras elas parecem não fazer o menor sentido (como a briga do amo do gato com seus vizinhos, os Kaneda). Leva um tempinho também para se acostumar com as conversas de Kushami (o dono do gato) e seus amigos (em sua maioria, acadêmicos), que por vezes parecem enfadonhas. Após algumas páginas, entretanto, percebe-se que é justamente o que os acadêmicos adoram fazer: falar, falar e falar, como se tudo o que dissessem fosse a coisa mais importante do mundo, e como se eles fossem sempre os donos da verdade. No meio de tanto lero-lero, surgem algumas pérolas que fazem a leitura realmente valer à pena. Algumas para vocês avaliarem:

“Os funcionários públicos estão a serviço do povo, assemelham-se a procuradores a quem foram delegados poderes para agir em nome dos cidadãos. Todavia, à medida que exercem suas funções diariamente acabam alucinados, passando a acreditar  que a autoridade a eles atribuída na verdade lhes pertence, não sendo dado a ninguém o direito de externar qualquer palpite sobre ela.” p382

“Quanto mais motivos ocultos as pessoas possuírem, mais razões haverá para a infelicidade. A causa de muitas mulheres serem em média mais infelizes do que os homens está ligada ao fato de terem motivos ocultos em excesso.” p395

“A moral da história é que precisamos estar alertas, pois quando movidos pelo costume tendemos a fechar os olhos diante dos princípios fundamentais.” p466

Depois de terminar o livro, de vez em quando ainda sinto saudades do gato e de sua visão (assim como a minha) um tanto pessimista dos homens…

4 pensamentos sobre “Eu sou um gato – Natsume Soseki

  1. Gosto bastante de ler também,vou aproveitar as suas sugestões. E concordo com seus pessimismo com relação a humanidade. Acho às vezes que não faço parte deste mundo, não há espaço para o meu jeito de ser e pensar, com tantas coisas loucas acontecendo ao nosso redor. bjs Rô

  2. Parece interessante essa versão japonesa do Garfield. O engraçado é que mesmo com tantas diferenças entre Ocidente e Oriente, a visão do funcioário público é a mesma, não interessa de que lado o Pacífico bate (se bem que não parece ser Pacífico bater).
    Esse humor japonês é esquisito…por mais que a gente avise eles não abrem o olho.

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