Pequenos tesouros

Pois é gente, dei uma sumida. Tem hora que é complicado dar conta de tudo. Acho que é porque quero coisas demais. Mas vamo-que-vamo!

Nos últimos dias, sei lá porquê, eu estava lembrando de como eu gosto de cacarecos – desde pequenininha. Fascinação por coisas velhas, guardadas, diferentes e cheias de histórias (ainda que muitas das histórias sejam desconhecidas).

A memória mais antiga que eu tenho quanto a esse tipo de “pequenos tesouros” é da casa da minha avó. Lá havia dois lugares principais de onde podia-se desenterrar as preciosidades. Um deles era o porão. Não é aquele porão de filme americano, mas o espaço que existe entre o piso da casa e o chão. Nas casas típicas do sul do Brasil este vão é comum, acho que deve ser para criar uma camada de ar que diminua o frio durante o inverno. Ali, onde mal cabe uma pessoa de pé, eram “escondidas” aquelas coisas que não se quer mais (mas que nunca sabemos o que fazer com elas: máquina de costura, aparelho de silk-screen…), ou que simplesmente não cabiam em nenhum outro lugar (como o cortador de grama). Ali de baixo era de onde o “papai noel” aterrorizante conversava com a gente através do piso, após bater por baixo do chão de madeira enquanto estávamos distraídas no andar de cima: “é o papai noel”! Ali era onde moravam cobras, lagartos e aranhas que nunca conseguíamos ver, mas que os cachorros sempre perseguiam alucinantemente. Escuro, frio e úmido, era quase uma caverna. Dava medo, e muita curiosidade. Só entrávamos lá acompanhadas, porém, apesar de ser um espaço curto, parecia sempre uma longa aventura!

O outro lugar era um quartinho de depósito. Havia um armário antigo onde guardava-se algumas iguarias, principalmente o vinagre mais forte que já vi na minha vida, o “schnaps” e as conservas de pepino e rabanete, típicas da região. Como é comum na roça, de vez em quando saía de lá algum minúsculo ratinho (camundongos, na verdade), que passava voando pelo corredor e que raramente alguém conseguia pegar. Num outro armário era onde ficavam guardados livros e brinquedos velhos (acho que nem eram tão velhos, mas para uma criança qualquer coisa com mais de 10 anos parece de outra era…). Os livros que minha mãe e meus tios usavam na escola, cheios de desenhos e rabiscos sobre os quais nos contavam as histórias, revistinhas da Luluzinha (que eu adorava!) e uns brinquedinhos bobos que eu achava o máximo. Mais pra frente também descobri lá fotos antigas da família, uma vitrola que hoje está aqui em casa e mais um tanto de coisas legais.

Em casa, sempre amava quando minha mãe resolvia mexer no baú que ficava no pé de sua cama. Lá eram guardadas aquelas roupas de cama e toalhas especiais, para visitas ou datas específicas. Não esqueço nunca do cheiro de sabonete com sei-lá-o-quê que se espalhava cada vez que ela levantava a tampa do baú. Dali também saíam as minúsculas roupinhas de quando eu era bebê, álbuns de fotos de casamento (“por que eu não apareço nas fotos, mãe?”) e cartas que minha mãe trocava com meu pai e com meu avô. Preciosidades.

Muitas outras pequenas “arcas” do tesouro apareciam: as caixas onde eram guardados os enfeites de Natal, que davam o ar da graça uma vez por ano; livros amarelos de meu pai, que delatavam a militância numa época de repressão, e por aí afora.

Tanto o gosto que tenho por estas bobagens, que aprendi a criar meus próprios reservatórios de memória, saudade e (re)descobertas. Faz tempo que não olho para eles, mas assim que sobrar um tempinho (ou que eu fizer um tempinho, porque sobrar ele nunca sobra) vou me debruçar sobre eles. Pois faz muito bem relembrar a própria história, e vivenciar as que não se viveu, através das coisas. Se cacareco serve para alguma coisa, é pra isso!

2 pensamentos sobre “Pequenos tesouros

  1. Pois é Kurbis. Esses pequenos tesouros familiares carregam consigo uma carga emocional que mantém o impacto e a magia mesmo com o passar dos anos. pode ser que com a idade tenhamos um melhor entendimento do significado real de alguns objetos que pareciam ser muito mais que são, mas o simbolismo deles fica maior à medida que seus donos se vão.
    Post nostálgico. Vou até ligar pra minha mãe.

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