Relações de poder e controle de ponto

Lidar com pessoas não é fácil. Pior ainda quando há interesses diversos e relações de poder – como ocorre no mundo do trabalho. Confesso que às vezes eu tenho uma preguiça imensa disso tudo.

Infelizmente não há trabalho em que não exista “dor de cabeça” ou problemas. Aliás, a própria vida é assim. Porém, quanto mais gente envolvida em algo, pior fica. E no trabalho isso se intensifica porque coisas como mandar e ser mandado, dar e seguir ordens, ver a corrupção e não ter poder para combatê-la, conciliar interesses inconciliáveis, geram conflitos de grande magnitude.

Vou dar o exemplo do que eu conheço e vivo, mas tenho certeza de que “situações semelhantes” de outrem não serão “meras coincidências”.

Sou servidora pública federal, trabalho como bióloga (técnica analista) na UFMG. Ok, já ganho um olho torto só por falar isso. “Bando de à toa mamador”. E a maioria é mesmo, infelizmente. Alguns, porque são realmente folgados-safados-sem vergonha. Contudo, boa parte dos funcionários não faz serviço algum (ou somente finge que está fazendo) porque, pelo menos na universidade, a organização do fluxo de trabalho e o treinamento dos trabalhadores é algo que não existe. Você chega, alguém aponta pra determinado lugar e diz: “é ali que você vai trabalhar”. Aí, VOCÊ tem que descobrir o que quem está naquele lugar tem que fazer, e como fazer. Às vezes, nem há realmente o que fazer, aí você tem que inventar algo, ou perceber qual é a demanda na conjuntura do local, e se adaptar a ela para realizar algum trabalho. Já viu quantas pessoas têm a inciativa pra isso, né? Por isso, a maioria acaba servindo de encosto. Sem organização e chefia adequadas, não há trabalho que aconteça. E fora que, como no serviço público há uma dificuldade imensa em mandar embora quem não cumpre o trabalho, a verdade é que as coisas são feitas por no máximo 20% do contingente (que se mata e fica sobrecarregado), enquanto o restante fica à toa e honra à má fama do servidor público.

Na universidade uma das questões que gera mais conflitos é a relação professor-técnico. Primeiro, porque boa parte dos acadêmicos julga-se superior a todos os demais mortais (e muitos, até que do próprio deus), e se acham os donos do conhecimento e da universidade. Segundo, porque são estes acadêmicos, que realmente sabem muito na sua superespecífica área (mas quase nada de administração e relações pessoais, dado que passaram toda a vida trancados em seus gabinetes e laboratórios) é que estão à chefia. Então, quando se junta quem (além de ser prepotente) não tem preparo (nem tempo, dado o acúmulo de funções) para coordenar e chefiar, com quem não está a fim de fazer nada e se sente inferiorizado, já deu pra sentir o que acontece… Há confusão principalmente porque cada classe quer defender seus próprios interesses e não está nem aí pros interesses da outra – e nesta guerra, quem está no poder acaba levando a vantagem. Claro, há exceções, mas são raras.

Um exemplo bobo, porém gerador de grande fuzuê, é a questão de assinar ponto. Na maioria dos lugares na universidade professor não precisa assinar, mas os técnicos sim. Por que a diferenciação, se todos têm carga horária a cumprir? Ao contrário do que muitos pensam, existem professores coçadores de saco também (assim como técnicos). E pra piorar, em cada unidade ou departamento varia o conceito do que é “assinar o ponto”: há locais em que as pessoas assinam uma vez por mês, há locais em que assinam diariamente (ao chegar e ao sair). E pra piorar mais ainda: o ponto que é assinado na verdade é apenas para constar, o que vale mesmo é uma espécie de “atestado de frequência” rubricado pelo chefe e encaminhado à seção de pessoal – ou seja, entre o que foi assinado e o que foi enviado pode haver divergências que prejudiquem ou favoreçam uns e outros (pode-se pedir auditoria para conferir o que foi assinado pelo funcionário, mas tenho dúvidas se isto realmente serve de prova para alguma coisa).

Eu, pessoalmente, não acho que ponto faz ninguém trabalhar – a pessoa pode estar lá de corpo presente sem produzir nada. A não ser em casos de atendimento ao público (que exige a presença do funcionário em horários determinados), pra mim o que funcionaria é a cobrança de metas (estilo Google). Acho um saco quando termino as minhas obrigações do dia e não posso ir embora porque tenho que esperar para assinar o maldito. Porém, como as regras/leis de trabalho exigem frequência, assiduidade e pontualidade, esse tipo de controle acaba tendo que existir – ainda que nenhuma dessas exigências seja sinônimo de produtividade… E se a lei é dura, mas é a lei, eu a obedeço (enquanto investigo se há formas legais de que as coisas funcionem de maneira alternativa).

2 pensamentos sobre “Relações de poder e controle de ponto

  1. Trabalho é um saco. Não chama trabalho a toa. O modo como algumas pessoas o encaram e, por consequência, agem nos ambientes laborativos é de perder a fé na humanidade. Na empresa onde trabalho o ponto é eletrônico, você loga em um sistema e bate entradas e saídas. Há certos tipos de serviços em que uma jornada de trabalho deve ser cumprida, como um operador de máquinas em uma linha de produção, ou um vendedor de uma loja. Porém, todavia, entretanto, trabalhos mais cerebrais não deviam ter a obrigatoriedade do ponto e nem do local físico do trabalho. Nessas atividades laborais que necessitam de mais massa cinzenta, deviam valer as teorias de Domenico de Masi.
    E sabe por que vampiros não trabalham? Porque trabALHO tem alho!

    • Kkkkkkkkk! É isso mesmo, Ogro. Por mais que seja algo que a gente goste, se tem chefe e se tem obrigação, sempre tem um momento em que acaba ficando… Um saco! Pena que eu não sou vampira…! : )

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