A morte iminente do Zé Gotinha

Um clássico do universo infantil brasileiro está prestes a ser eliminado. É possível que nos próximos anos a vacina em gotas contra a poliomelite (vacina Sabin) não seja mais utilizada: será a morte (ou aposentadoria?) do famoso Zé Gotinha.

A vacina Sabin tem sido utilizada no combate à poliomelite no Brasil há muitos anos. A maioria das pessoas já nem se lembra (ou sabe) o que é esta doença, cujo último caso registrado de transmissão selvagem no Brasil foi em 1989. Mais conhecida como paralisia infantil, ela é causada por um vírus transmitido através de água e/ou alimentos contaminados (transmissão fecal-oral). O vírus se multiplica no sistema digestivo (e por isso é excretado juntamente com as fezes, levando à contaminação de água e alimentos onde o saneamento não é adequado). Ele também infecta e destrói células do sistema nervoso, o que pode ocasionar, entre outros sintomas, a paralisia de músculos locomotores ou a paralisia respiratória (esta, quase sempre levando à morte).

Ainda que a maioria dos infectados pelo vírus sejam assintomáticos, como o vírus é de fácil transmissão, o número de pessoas com sequelas graves e dificuldades de locomoção era bastante alto até os anos de 1980, quando intensificou-se o combate e a prevenção da poliomelite no país através da vacinação com o “Zé Gotinha”.

Hoje a poliomelite é considerada erradicada da maioria dos continentes, com exceção da África e da Ásia. Entretanto, como o vírus é de fácil propagação, e a globalização tem facilitado o deslocamento de pessoas de um continente para outro, em muitos lugares se mantém a vacinação para evitar a reintrodução do agente. Por outro lado, ao contrário do Brasil, a maioria dos países desenvolvidos não utiliza a vacina Sabin, e sim a vacina Salk. A vacina Sabin (em gotas, de administração oral) é constituída pelo vírus “vivo” (porém enfraquecido, incapaz de causar doença), é mais barata e tem maior eficiência de proteção – mas por outro lado, representa um risco, já que numa pequena porcentagem de casos o vírus presente na vacina pode “recuperar sua força” e causar a doença. Devido ao risco representado pela vacina Sabin ser mais alto que o risco de uma infecção natural nos locais onde o vírus foi considerado erradicado, a opção pela vacina Salk, com vírus “morto”, que confere um nível de proteção mais baixo e é mais cara (é injetável e não oral, requer pessoal mais especializado para a sua aplicação) tem sido maior, pois não há o risco do vírus “ressuscitar” e causar doença. E é isso que provavelmente ocorrerá no Brasil nos próximos anos: a vacina oral (Sabin) será substituída pela vacina injetável (Salk). Será a morte do Zé Gotinha.

A dúvida que resta é somente se o vírus realmente foi erradicado, pois caso não tenha sido, existe uma chance dele reaparecer com esta mudança nas vacinas. Trabalhar com políticas públicas de saúde não é fácil. Afinal, como pesar o risco de alguém ter a doença pela vacina (é considerado baixo, mas e se for justo o seu filho?) X a segurança que ela dá à população em geral (e, em níveis capitalistas, à menor quantidade de $$ que o governo gasta)? Talvez por isso o governo não tenha ainda feito esta mudança apesar de não haver casos registrados há mais de 20 anos… Pro governo, somos apenas números e dinheiro.

http://g1.globo.com/brasil/noticia/2011/08/ministerio-da-saude-estuda-extinguir-vacina-em-gotas-contra-poliomelite.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Poliomielite

4 pensamentos sobre “A morte iminente do Zé Gotinha

  1. Complexa essa questão das vacinas…que o diga Osvaldo Cruz, ou diria, se fosse vivo. Pelo que entendi na minha ignorância biológica, a Sabin tem um risco pequeno porque o vírus tomou tanta porrada que já não consegue mais bater em ninguém, e a Salk o vírus tomou tanta porrada que já morreu e ai não bate em ninguém de jeito nenhum, mas por outro lado nem mostra pra gente como se bate nele. Tem muitos casos em que o vírus da Sabin ganhou força de novo? Em saúde pública contas financistas não deveriam ser feitas. Envolvem vidas e modos de viver a vida. É pela saúde estar tão envolvida com dinheiro que não se descobre a cura do câncer nem da AIDS. É mais lucrativo manter a pessoa viva por 12 anos na base de coquetéis do que criar uma cura definitiva. Como diz um amigo meu que você talvez conheça, eu adoro uma teoria da conspiração.
    Quando ao Zé Gotinha, não fiquemos tristes, pode ser inventado o primo dele, o João Espetadinha!

    • Ogro, seu entendimento está corretíssimo! Parece que o vírus vacinal “volta à vida” na proporção de 1caso/1milhão de vacinados – só não sei quantas crianças tem sido vacinadas a cada campanha… Mas isso é estatística, não necessariamente o número de casos – não sei o número de casos reais… Também gosto das teorias de conspiração! Vamos chamar o João Espetadinha!

  2. Se um milhão de crianças foram vacinadas no Brasil, basta verificar quantas desenvolveram a doença após a aplicação da Sabin. Por outro lado, como a Salk é menos eficiente, após um milhão de vacinas basta observar quantas pessoas desenvolveram a doença mesmo tendo sido vacinadas com uma vacina teoricamente mais segura.

    • Oi Denis!
      Pois é, teoricamente, é simples como você falou mesmo! O problema é que o governo não está interessado em averiguar isso de forma idônea, porque dá trabalho, e, dependendo do resultado que for divulgado, pode fazer com que a população passe a não tomar mais as vacinas… A verdade é que quando se trata de políticas públicas de saúde, nós somos tratados como um rebanho: opta-se por aquilo que funciona melhor para a maioria, mesmo que alguns venham a sucumbir por causa disso…
      Inté!

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