O Homem Duplicado – José Saramago

Primeiro, custei a tirar este livro do armário. Ganhei ele da minha irmã, no final do ano passado. Como havia uma pilha de livros me esperando, ele teve que aguardar até à metade deste ano para sair da prateleira. Depois, demorei muito tempo pra dar conta desse livro. Meses. Não que ele fosse difícil ou complexo, mas é que o Saramago tem um ritmo que nos desafia nesses tempos de correria da atualidade. E não é só por causa da falta de parágrafos e pontuação supermoderna com diálogos separados apenas por vírgula. As histórias progridem numa lentidão, vão indo às vezes tão devagar, que você tem dúvida se aquilo vai mesmo contar alguma coisa, ou se não passa de uma desculpa para o autor colocar suas opiniões e pontos de vista de forma disfarçada no meio de blablablas vagos. Às vezes a narração atinge um nível de detalhes da banalidade cotidiana que nos faz pensar que “se eu soubesse que este livro ia ficar destrinchando as bobagens cansativas do meu próprio dia-a-dia, nem tinha começado a ler…”. Tem sido assim com todos os livros que já li do autor. Mas é claro que tem algo de bom, né? Afinal, não sou masoquista pra ficar lendo algo que me causa dor!

Imagino que o Saramago utilizava esta tática para criar uma proximidade com o leitor. Afinal, de um modo geral, a maior parte do tempo em nossas vidas de reles mortais personagens de coisa nenhuma, é gasta com atividades e discussões totalmente banais. Além disso, aquelas “conversinhas” que temos com nós mesmos (ou com o senso comum, como é o caso neste livro) e sobre as quais ninguém além de nós  mesmos tem conhecimento, servem pra mostrar que os personagens do autor são pessoas normalíssimas como a gente – apesar deles sempre chegarem num ponto (independente do livro em questão) em que passam a viver uma realidade quase que fantástica e surreal. E acho que funciona bem. É como se o autor dissesse: caro leitor, você está aí sentado, quietinho, lendo este livro, com sua vidinha bobinha e certinha, mas pode ser que para você (assim como ocorre com meu personagem), quando menos esperar, a vida reserve “algo completamente diferente”. A história vai crescendo bem devagar, e de repente, é como se você levasse um tapa na cara, e as coisas passam a acontecer.

Para quem tem ânimo de superar estes reveses, a leitura vale a pena. “O homem duplicado” é sobre um sujeito que descobre que há no mundo alguém idêntico a ele, mas que não é seu clone, irmão gêmeo, nem sósia. Apenas uma evento dos mais improváveis da natureza (e da estatística): nasceram por mães e pais diferentes dois indivíduos iguaizinhos. E daí então o homem passa a ficar extremamente angustiado com tal fato e se põe em busca do que fazer em tal situação (eu pessoalmente, não faria nada, mas no caso, se ele não fizesse, não haveria o que contar!). Acaba sendo uma boa metáfora para avaliarmos o que nos faz únicos e nos mostrar o quanto (talvez) estejamos perdidos numa sociedade que apesar de pregar o individualismo nos trata como massa homogênea. Mais um livro que deixa saudade ao ser finalizado…

2 pensamentos sobre “O Homem Duplicado – José Saramago

  1. Até hoje não li nem um livro do Melhorabruxo. Tentei começar a ler um uma vez mas não tive sua garra e larguei para nunca mais voltar a ele.
    Percebi nesta postagem que devia ter insistido, portanto, procurarei esse livro do Recupereasaúdemágico.
    Abraçogro

    • Oi Ogro! Minha primeira tentativa foi assim também, e até hoje não tive coragem de tentar ler o livro de novo (foi o “Evangelho segundo Jesus Cristo”). Acho que fui animar tentar ler outro livro do Curadodoideilusionista quase 10 anos depois… Recomendo que você comece com o que me fez superar as 20 primeiras páginas: “Ensaio sobre a Cegueira”. Este último que li (“O Homem Duplicado”), confesso que foi penoso passar do início (e do meio), mas o final valeu a pena (e olha, posso estar errada, mas acho que o final tem a sua cara!).

      Se conseguir bater o recorde e ler mais de 30 páginas me fala!🙂

      Abraço!

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