Repensando a religiosidade

Esta época de Natal faz aflorar em nós muitos sentimentos. Para boa parte das pessoas, são sentimentos relacionados à religiosidade e ao pensamento cristão: já que a ocasião é a do aniversário de Jesus (que como diz um amigo meu, está muito bem: mais de 2000 anos com corpinho de 33…!). No entanto, para muitos outros que não se ligam a religiões, ou são contra elas, ou que estão questionando-as internamente, este período suscita muitas reflexões de caráter um pouco diferente.

Meus 2,5 leitores fixos sabem que sou bióloga e trabalho na área de pesquisa, numa universidade. Neste meio acadêmico a quantidade de pessoas ateístas é muito maior do que na sociedade como um todo. Por isso, com frequência recebo posts e mensagens sobre o assunto. Não acredito que o “ambiente acadêmico” por si só seja o responsável por “tornar” as pessoas descrentes (quem tem fé tem de qualquer jeito, muitos amigos lá são até mais religiosos do que gente que realmente se diz seguidora de alguma coisa em outros meios). Porém, o fato de estar num lugar em que as perguntas são mais importantes do que as respostas favorece os questionamentos – que acabam nos apontando incongruências que abalam qualquer fé que não seja muito forte e arraigada.

Eu não me considero ateísta, apesar de achar que o caminho que tomei provavelmente me levará até lá. Minha criação e formação foi toda católica: fui batizada, fiz primeira comunhão, crisma… Meus avós sempre rezavam antes de cada refeição, e tenho até um tio que é padre (ainda que meus pais não frequentem à missa da maneira que é recomendada pela igreja). E mesmo que até à adolescência eu tivesse um real sentimento de êxtase na páscoa e no natal, hoje tenho dúvidas se isso era realmente uma experiência religiosa ou somente aquela incrível capacidade de maravilhamento que temos quando criança (e que tendemos a perder à medida que os anos passam).

Acho que tô pior que São Tomé: nem vendo eu creio!

Meu processo de “desreligiosação” teve início bem antes que eu entrasse na faculdade. Quando, nas aulas de história, comecei a ver as atrocidades que a igreja aprontou, passei a desconfiar que alguma coisa devia estar errada… E quando nestas aulas de história eu aprendi que as pessoas ou entidades que ditavam o que era bom ou ruim, e o que cada um era obrigado a fazer, arrebanhando massas exaltadas,  alienadas e desesperançosas na vida, eram as pessoas ou entidades que mais causavam danos à humanidade, eu tive uma certeza: não acredite em ninguém e desconfie de tudo e todos! E desde então a religião vem perdendo o sentido para mim, e a cada dia eu vejo mais alguma coisa que reforça esse meu pensamento.

Contudo, não consigo me desvincilhar de alguns hábitos arraigados, cultivados desde a tenra idade, como por exemplo, rezar antes de dormir. E o que tenho pensado é que, apesar de não ser religiosa, julgo que a espiritualidade é necessária a qualquer ser humano – ao contrário do que dizem os ateus mais extremos. Não acho que ninguém precisa acreditar em deus, mas todo mundo precisa acreditar em alguma coisa capaz de transcendê-lo. O cientista ateu acredita na ciência como algo maior e superior a nós mesmos. Para o músico ateu, a música tem o mesmo perfil. E assim por diante. Porque se a gente não crê que algo fica além de nós (ou apesar de nós), a vida realmente perderia o sentido, o que levaria boa parte da humanidade ao auto-extermínio. Como bióloga tenho a louca teoria de que para os animais racionais como os humanos a espiritualidade é um caráter que foi fundamental para vencer o medo e sobreviver – e por isso acabou  “fixado” como parte de nosso instinto. Talvez, no futuro, não nos seja mais necessária (após tanta ciência), mas ainda vai levar uns bons milhares de anos para que esta característica seja perdida de nosso perfil como espécie…

Para leituras que tem algo a ver com o assunto e o natal:

http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/2011/dec/24/christmas-atheists?fb=native&CMP=FBCNETTXT9038

http://ceticismo.net/religiao/a-verdadeira-historia-do-natal/

http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=15363

http://obviousmag.org/archives/2007/06/habitara_deus_n.html

2 pensamentos sobre “Repensando a religiosidade

  1. Meldels! Quem poderia fazer uma piadinha tão infame quanto essa dos 2000 anos com corpinho de 33??? Religiosidade é fé. Ou tem, ou não tem. Nunca vi ninguém que não fosse exposto a uma situação de desespero abraçar alguma religião depois de véi. O que parece é que ou incutem religião na sua cachola enquanto criança, ou uma catástrofe te joga na mão de alguma Igreja. Como estudei em escola religiosa fiquei razoavelmente bem doutrinado, porém, tenho fobia de carolices religiosas.

    • Pois é Ogro, nem vou te contar quem foi o autor dessa blasfêmia…! Também estudei em escola religiosa, meu perfil é parecido com o seu. Nas horas difíceis a tendência é apelarmos pra qualquer coisa que pareça nos salvar (como quando jogam uma boia para que está se afogando). No desespero a gente nem repara se a boia tá furada e vai fazer nos afundar mais (porque aí, não vamos nem tentar nadar mais), né? Por isso temos que tentar pensar apesar desse desespero!
      Abraço

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