“A vida Imortal de Henrietta Lacks” – de Rebecca Skloot

Recentemente terminei de ler este livro: “A vida Imortal de Henrietta Lacks” – de Rebecca Skloot. Para quem não é do meio científico, o título provavelmente soa como uma história de fantasmas ou ficção científica. Na verdade, é uma biografia, uma história real. Mas como existe uma mulher imortal e ninguém te avisou até hoje?!? Que loucura é esta? Calma, calma… Vou explicar.

Ainda que seja uma biografia, real, e não uma história de fantasmas ou ficção científica, o livro é um mergulho no passado norte-americano da transição pós-escravidão e da segregação racial (o que acaba trazendo à tona alguns “fantasmas”) e nos primórdios e desenvolvimento da ciência biológica moderna. E o que a  Henrietta Lacks tem a ver com isso tudo? Henrietta foi a mulher de quem foram retiradas as primeiras células humanas passíveis de serem cultivadas em laboratório por tempo indeterminado, o que chamamos de células imortalizadas (de linhagem contínua). Estas células, conhecidas mundialmente pelo acrônimo de HeLa, permitiram uma enorme revolução científica, gerando desde de tratamentos contra o câncer, até vacinas como a da poliomelite. Sem elas provavelmente não dominaríamos as técnicas que hoje permitem os estudos com células tronco e a produção de medicamentos contra vírus como o HIV. As células  foram retiradas em 1951, de um câncer de colo de útero que Henrietta teve. Logo depois, Henrietta faleceu. Porém, suas células tumorais continuaram crescendo, e até hoje elas são cultivadas em laboratórios espalhados por todo o mundo, contribuindo para a ciência e gerando muito dinheiro para a indústria farmacêutica. Muito bonito e emocionante, né?

O problema por trás disso tudo é que Henrietta e sua família não tiveram conhecimento de que estas células haviam sido retiradas para uso em pesquisas, e nem que elas geraram todo esse progresso científico e lucro empresarial. O procedimento não foi claramente explicado a eles, e não houve um consentimento oficial para isso. A favor dos médicos e cientistas, na época não havia leis claras ou comitês de ética em experimentação humana para norteá-los, e além disso, ninguém previa todo o conhecimento e produtos que aquelas células gerariam. Mas de forma alguma isso redime o preconceito e a falta de consideração – Henrietta e sua família eram todos negros, de pouca instrução e levavam uma vida bastante difícil.

Rebecca Skoot fez um excelente trabalho de pesquisa histórica e entrevistas para chegar a este livro. Teve muita paciência, pois a história e o rastro de Henrietta Lacks quase foram perdidos após anos e anos de anonimato (em que aquela mulher tinha sido reduzida a uma sigla), e porque  conquistar e entrevistar os familiares raivosos, confusos e sofridos com os fatos mal contados não foi tarefa fácil. Recomendo a leitura: para conhecer a história de Henrietta,  dos negros norte-americanos, e do progresso da ciência e de seus códigos de ética. Bom proveito!!

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