Aprendizado precoce

Faz tempo que não escrevo aqui uma “historinha”… Segue uma nova:

Jaquelline ainda estava se acostumando com as tarefas maternas, apesar de seu filhote já estar com quase um ano de idade. Toda vez que saía de casa, era aquele mundo de coisas para carregar. Fralda, lenço higiênico, mamadeira, bico… Porém, ela estava satisfeita em ser mãe, ainda mais agora que Brunin estava naquela fase de grandes descobertas e aprendizados. Era incrível como a cada dia ele adicionava novas palavras ao seu vocabulário.

Num dia de muita correria, ela resolveu ir almoçar nesses fast foods que pipocam pela cidade. Carregando o filho e mais toda a quinquilharia de praxe, enfrentou a enorme fila (boa educação já não existe mais), pra fazer seu pedido. “O especial, sem molho, por favor”, ela solicitou ao caixa. Apesar de todo o “fast”, ainda teve que aguardar um tempo para o sanduíche chegar. Enquanto isso, Brunin apontava para tudo o que via, dando nome às coisas, e perguntando à mãe como se chamavam quando desconhecia algo. Finalmente, o lanche foi entregue, e ela se dirigiu a uma das mesas para fazer sua refeição.

Esfomeada, deu logo uma mordida no sanduíche, para só então verificar que a porcaria do molho, ao contrário do que pedira, estava lá. “Mas que mer…!” ela começou a falar, mas lembrando que o filho estava ali, sedento para aprender tudo o que mãe dizia, Jaquelline interrompeu a frase no meio. Ela dirigiu-se ao caixa que a atendera, de sanduíche numa mão e o filho no outro braço, e começou a esbravejar: “eu pedi sem molho, SEM MOLHO! Será que vocês não entendem?”, “minha senhora, não me recordo de você ter pedido para retirar o molho”, “eu SEMPRE peço sem molho, então, não há a menor chance de eu ter me esquecido! A incompetência foi toda sua!”, “sinto muito, mas eu estou certo do que cada cliente pediu”, “então me chama o gerente, por favor!”.

O gerente veio, e o atendente explicou sua versão da história, para logo depois, Jaquelline, irritadíssima com a petulância do menino, dar a sua própria versão. O gerente disse que era novo no ramo, e que iria consultar a cartilha de orientação da empresa para ter certeza de como agir em tal situação, porque aquilo era algo extraordinário para o qual ele não fora preparado. Jaquelline, morrendo de fome, de braço dolorido, já não suportava mais tanta gente ruim de serviço, e reclamava sem parar. Após mais alguns minutos de espera, que pareciam intermináveis, o gerente finalmente voltou com a previsível solução: “faz outro sanduíche pra ela. SEM MOLHO dessa vez”, “é SEM MOLHO!”, reiterou Jaquelline.

Quando o novo sanduíche chegou, ela o tomou ferozmente da mão do atendente insuportável, e retornou para a mesa. Exausta depois de tanta confusão desnecessária, ela sentou-se, e como num suspiro aliviado liberou: “Puta que o pariu!”. Só foi perceber o que tinha feito, quando ao dar a primeira mordida no lanche, escutou uma vozinha singela declamando: “Qui paliu!”, no mesmo tom que ela havia usado. Por mais que ela insistisse com ele que não falasse aquilo, Brunin não parava de repetir. Não tinha mais volta. O garoto havia aprendido seu primeiro palavrão. Por obra de sua mãe.

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2 pensamentos sobre “Aprendizado precoce

  1. O prejuízo educacional e pedagógico causado por um atendente despreparado!!!!!!! Falta preparo para esses atendentes, que não ouvem as demandas dos clientes com atenção, causando danos irreparáveis no processo de criação do caráter de Brunin, que vai ser apelidado de Brunin, Boca de Bueiro.
    Se tivesse crescido em família africana essa mamãe comia o molho sem reclamar.

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