Os caminhos inesperados da ciência: prêmio “Golden Goose”

Baseado no artigo “Como uma água-viva fluorescente – e dinheiro do governo federal norte-americano – ajudaram a lutar contra a AIDS”, do Washington Post, disponível aqui (em inglês).

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A pesquisa científica às vezes parece não ter um objetivo muito claro, ou que tenha uma aplicação óbvia para a sociedade. Isso é um problema, considerando que muito investimento (principalmente público) é feito em pesquisas que às vezes se mostram inúteis ou são até mesmo pseudocientíficas. Por outro lado, não se pode restringir demais a ciência, com o desejo de que ela tenha apenas um caráter utilitário imediatista, pois muitos mecanismos e aplicações só se desenvolvem após a compreensão de um conhecimento básico (e para alguns, aparentemente inútil) até então irrelevante e obscuro.

Em 2012 o governo norte-americano criou o prêmio “Golden Goose” (“Ganso de Ouro”) como forma de valorizar as pesquisas financiadas pelo governo federal dos EUA – especialmente aquelas que por algum motivo haviam sido consideradas “inúteis”, mas que acabaram mostrando-se grandiosas. O nome do prêmio é uma alusão à fábula do “ganso dos ovos de ouro” (ok, no Brasil a gente conhece como a galinha, mas considerem como licença poética), para o qual não era dado o devido valor, mas que no fim acaba sendo muito valioso. O nome também é um contraponto ao “prêmio” “Golden Fleece“, que nas décadas de 1970 e 1980 era dedicado àqueles investimentos que (aparentemente)  desperdiçavam o dinheiro público lá nos EUA. O “Golden Goose”  é uma tentativa de valorizar a ciência, que tem sofrido cortes de orçamento nos EUA nos últimos anos.

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Alguns dos ganhadores do “Golden Goose” em 2012 foram os pesquisadores que se perguntaram “por que a água viva brilha no escuro?” e se dedicaram às pesquisas para responder tal pergunta (a propósito, por esta mesma pesquisa eles ganharam o Prêmio Nobel de Química em 2008). Com uma pergunta que parece beirar a ingenuidade infantil, Martin Chalfie, Osamu Shimomura e Roger Y. Tsien acabaram descobrindo uma proteína verde fluorescente (GFP, em inglês) que hoje é onipresente nos laboratórios de biotecnologia, e a qual entre muitas outras aplicações, permite marcar e rastrear vírus (como o HIV, causador da AIDS) e moléculas para estudar como eles funcionam. Martin Chalfie chama a atenção para o fato de que “pesquisa é um investimento a longo prazo. Você não consegue prever o que você vai conseguir (com ela)”. Charles Townes,  outro vencedor do “Golden Goose” por suas pesquisas com raios laser, comenta que os políticos norte-americanos “gostam de pensar que eles conseguem antever o que é necessário. (Mas) você tem que ter a mente aberta”.

Será que um dia termos algo parecido aqui no Brasil, para estimular nossos cientistas e suas pesquisas?

PS: Claro, que há pesquisas que parecem inúteis e… são mesmo! Algumas delas são agraciadas com o “prêmio” Ig Nobel. (Muitas não são inúteis, apenas improváveis e divertidas). Mas quais critérios utilizar para selecionar o que é uma pesquisa “válida”?

Publicado originalmente em http://dotoraquem.wordpress.com/2013/04/27/os-caminhos-inesperados-da-ciencia-premio-golden-goose/

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