“As Dores do Mundo”, de Schopenhauer

DoresTinha muita vontade de ler algo do Arthur Schopenhauer, pois sempre me identifiquei com as frases, aforismos e ideias dele que eu lia por aí. Não sabia por qual obra começar, e nem lembro porque escolhi “As Dores do Mundo”, mas achei um bom começo. É um livro curto, bem abrangente e de fácil entendimento (para um livro de filosofia). Falo aqui como uma pessoa comum, porém curiosa – pois não entendo nada de filosofia!

Apesar de umas e outras ideias meio preconceituosas que tive que desconsiderar (especialmente a respeito da Mulher – mas temos que dar um certo desconto, pois isso foi entre os séculos XVIII e XIX), vi que tenho vários pensamentos semelhantes aos dele. Dá para perceber nele uma forte influência do budismo e das ciências biológicas.

Eu discordo um pouco do ponto de vista geral de Schopenhauer, que enxerga a dor como sendo algo positivo. Acredito que possamos tirar algo de bom da dor (quando ela acontece) e que precisamos encará-la de frente, porém, não penso que a dor seja a razão de nossa existência, como ele diz. Por outro lado, se utilizarmos o olhar pessimista e niilista do filósofo, associado à premissa budista do desejo como fonte do sofrimento, conseguimos entender esta visão, ainda que não concordemos com a mesma. Dependendo da interpretação feita, é possível até concordar com o autor, se considerarmos que a dor não é a razão de nossa existência em si, mas que ela passa a ser um fim devido ao modo como nossa sociedade está organizada de tal forma que não permite às pessoas satisfazerem seus desejos:

“A vida não se apresenta de modo algum como um mimo que nos é dado a gozar, mas antes como um dever, uma tarefa que tem de se cumprir à força de trabalho; daí resulta, tanto nas grandes como nas pequenas coisas, uma miséria geral, um trabalho sem descanso, uma concorrência sem tréguas, um combate sem fim, uma atividade imposta com uma tensão extrema de todas as forças do corpo e do espírito. Milhões de homens, reunidos em nações, concorrem para o bem público, procedendo, assim, cada indivíduo em seu próprio interesse; caem, porém, milhares de vítimas para a salvação comum. Umas vezes são preconceitos insensatos, outras, uma política sutil que excita os povos à guerra; urge que o suor e o sangue da grande massa corram em abundância para levar a bom fim as fantasias de alguns, ou para expiar as suas faltas. (…) Mas qual é o alvo de tantos esforços? Manter durante um curto espaço de tempo entes efêmeros e atormentados, mantê-los, no caso mais favorável, em uma miséria suportável e numa ausência de dor relativa que o tédio logo aproveita; depois a reprodução dessa raça e a renovação de seu curso habitual”. p.33.

Extremamente crítico, Schopenhauer aborda também muitos outros assuntos, como o amor e a morte, sempre com esta mesma verve. Não importa o tema, o que normalmente mais chama a atenção é a clareza com que ele vê os defeitos e fraquezas da humanidade:

“(…) O egoísmo não tem limites; foi para o dissimular que os homens inventaram a delicadeza, foi para o regularizar e coagir que instituíram o Estado (…)” p.103.

Interessante é que ele possui a mesma clareza para observar também os grandes feitos e qualidades do Homem, como as artes:

“A arte é uma redenção – Ela livra da vontade, e portanto da dor – Torna as imagens da vida cheias de encanto – A sua missão é reproduzir-lhe todas as cambiantes, todos os aspectos (…)” p.94.

E a piedade:

“Só a piedade é o princípio real de toda justiça livre e de toda caridade verdadeira. A piedade é um fato incontestável da consciência do homem; é-lhe essencialmente própria e não depende de noções anteriores, de ideias a priori, religiões, dogmas, mitos educação e cultura (…) tão grande é a certeza de que ela existe em todos os homens (…)”  p.109.

“Uma piedade sem limites para com todos os seres vivos é o penhor mais firme e seguro do procedimento moral (…). Pode-se ter a certeza de que aquele que a possui nunca ofenderá ninguém, nem lhe causará dano nos seus direitos ou na sua pessoa; pelo contrário, será indulgente para com todos, perdoará a todos, prestará socorro ao seu semelhante na medida de suas forças, e todos os seu atos terão o cunho da justiça e do amor pelo próximo.(…)”  p.111.

Boa leitura!

Um pensamento sobre ““As Dores do Mundo”, de Schopenhauer

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