Primavera Silenciosa, de Rachel Carson

Rachel Carson[1] não seguiu a vida acadêmica por algumas incontingências da vida, embora seu amor pela natureza e sua verve científica não deixassem nada a dever em relação aos pesquisadores renomados da academia. Faz parte de um grupo relativamente seleto de cientistas que souberam divulgar ciência para o grande público de forma a propagar não somente conhecimento, mas também a capacidade de maravilhar-se e preocupar-se com o universo que nos cerca. E isso numa época em que as mulheres tinham espaço e respeito bem menores do que hoje (entre 1930 e 1960, aproximadamente).

Primavera Silenciosa (Silent Spring, 1962) foi o livro que tornou Rachel mais conhecida, influenciando fortemente o lançamento do movimento ambientalista, além de ter contribuído na proibição do uso do DDT e com outras leis relacionadas ao controle no uso de agrotóxicos e inseticidas – contribuindo para um mundo um pouco menos sombrio do que aquele sem o canto dos pássaros, que parecia ser o futuro até então, conforme ela descreveu a “primavera silenciosa” que serve de título à obra.

Green Jay, Ramirez Ranch, Near Roma, Texas

Linda Lear, autora de uma biografia sobre Rachel Carson[2], comenta na introdução do livro[3]:

Primavera Silenciosa, o produto de sua inquietude, desafiou deliberadamente a sabedoria de um governo que permitia que substâncias tóxicas fossem lançadas no meio ambiente antes de saber as consequências de uso a longo prazo. Escrevendo em uma linguagem que todos entendiam e usando inteligentemente o conhecimento do público das radiações atômicas como ponto de referência, Carson descreveu como os inseticidas à base de hidrocarbonetos clorados e fósforo orgânico alteravam os processos celulares das plantas, animais  e, por implicação, dos seres humanos. A ciência e a tecnologia, denunciava ela, haviam se tornado servas da corrida da indústria química em busca de lucros e do controle dos mercados. Em vez de proteger a população de danos potenciais, o governo não apenas dava sua aprovação a esses novos produtos como fazia sem estabelecer nenhum mecanismo de prestação de contas. Carson questionava o direito moral do governo de deixar seus cidadãos desprotegidos diante de substâncias que eles não poderiam evitar fisicamente nem questionar publicamente. Essa arrogância insensível só poderia levar à destruição do mundo vivo. (…)

Primavera Silenciosa incita todas as gerações a reavaliar suas relações com o mundo natural. Somos uma nação que ainda debate as questões levantadas, que ainda não se decidiu a respeito de como agir para alcançar o bem comum e como atingir a justiça ambiental. Ao afirmar que a saúde pública e o meio ambiente, humano e natural, são inseparáveis, Rachel Carson insistiu em que o papel do especialista precisava ser limitado pelo acesso democrático e devia incluir o debate público (…).”

Através de alguns trechos do livro é possível perceber a “vanguarda” do pensamento de Carson, que já chamava atenção para fatos que hoje parecem acontecer ainda com maior frequência, e que têm sido cada vez mais questionados por movimentos sociais civis:

“Não seria realista supor que todos os produtos químicos cancerígenos possam ser eliminados do mundo moderno. Mas um proporção bastante grande deles não constitui, de forma alguma, necessidades vitais.” Capítulo ‘Um em cada quatro’

“As maiores indústrias químicas estão despejando dinheiro nas universidades para financiar pesquisas sobre inseticidas. Isso cria bolsas atraentes para estudantes de pós-graduação e cargos interessantes nas universidades. Os estudos relativos ao controle biológico, por outro lado, nunca recebem esses incentivos – pela simples razão de que eles não prometem a ninguém as fortunas que podem ser ganhas na indústria química. São deixados a cargo dos órgãos estaduais e federais, em que os salários são bastante inferiores.” Capítulo ‘A Natureza Contra-Ataca’

Edward O. Wilson, importante cientista e autor da área de ecologia, analisa no posfácio de uma das edições de Primavera Silenciosa[4]:

“Em nome de nossa prosperidade e segurança, recompensamos a ciência e a tecnologia com alta estima e depositamos grande confiança na infalibilidade aparente da engenhosidade material. Em consequência, os alertas ambientais eram tratados com irritada impaciência. (…)

Rachel Carson, ao recontar essas histórias de horror em Primavera Silenciosa, não defendeu o fim do controle das pestes. O que ela defendeu foi o fim da imprudência criadora de riscos que é o uso de pesticidas em larga escala. Essas substâncias, afirmou, jamais deveriam ser disseminadas (…) sem o conhecimento adequado e público de seu impacto sobre o meio ambiente e a saúde humana. Em vez disso, ela insistia, precisamos mudar e adotar soluções claras, precisas, baseadas na ciência e no amplo conhecimento ambiental.”

Rachel parecia realmente um ser humano à frente de seu tempo. Absorver um pouco de seus conhecimentos e sabedoria através da leitura de Primavera Silenciosa talvez possa nos ajudar a ser um pouco como ela, a contribuirmos um pouco mais para a preservação do mundo e de nossa própria espécie.

“Parece razoável acreditar que quanto mais claramente possamos concentrar nossa atenção nas maravilhas e realidade do universo que nos cerca, menos gosto teremos pela destruição de nossa raça. Admiração e humildade são emoções saudáveis, e não existem lado a lado com o desejo de destruição.” Rachel Carson


[1] Para mais detalhes da biografia (em inglês), consulte: http://www.rachelcarson.org/Biography.aspx e http://en.wikipedia.org/wiki/Rachel_Carson .

[2] Rachel Carson, witness for nature [Rachel Carson, testemunha da natureza].

[3] Editora Gaia, 1ª Edição.

[4] Editora Gaia, 1ª Edição.

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