Estudo confirma que a humanidade está na zona de perigo existencial

AUTOR: James Dyke, Professor de Simulação de Sistemas Complexos da Universidade de Southampton

Artigo publicado originalmente no site “theconversation.com”, disponível aqui.

Os seres humanos têm ignorado os sinais. Thomas Hawk, CC BY-NC

Os seres humanos têm ignorado os sinais. Thomas Hawk, CC BY-NC

O clima da Terra sempre mudou. Todas as espécies, eventualmente, se extinguem. Mas um novo estudo trouxe em evidência o fato de que os seres humanos têm, no contexto de escalas de tempo geológicas, produzido perturbação quase instantânea, em escala planetária. O estudo sugere que estamos plantando sementes de devastação na Terra, e se aproxima rapidamente o momento em que colheremos esta safra.

Isto no ano em que o “circo” da mudança climática da ONU vai montar assentamento em Paris. A Conferência dos Partidos em Dezembro de 2015 será a primeira vez que as nações individuais apresentarão as suas propostas para as metas de redução de emissão de carbono. Com certeza surgirão faíscas.

A pesquisa, publicada na revista Science, deveria acertar o foco das mentes dos delegados e de suas nações, uma vez que estabelece de forma fidedigna como estamos dirigindo o clima e outros sistemas vitais da Terra para muito além de qualquer espaço operacional seguro. O trabalho, liderado por Will Steffen, da Universidade Nacional Australiana e do Centro de Resiliência de Estocolmo, conclui que a nossa civilização industrializada está direcionando uma série de processos planetários chave para áreas de alto risco.

A publicação alega que a mudança climática e a “integridade da biodiversidade” devem ser reconhecidas como elementos centrais do sistema Terra. Estas são duas das nove fronteiras planetárias (condições planetárias limitantes – em português, aqui) que devemos manter adequadas, se quisermos evitar prejudicar os sistemas biofísicos dos quais nossa espécie depende.

As fronteiras planetárias  foram originalmente concebidas em 2009 por uma equipe liderada por Johan Rockstrom, também do Centro de Resiliência de Estocolmo. Juntamente com seus co-autores, Rockstrom produziu uma lista de nove alterações ao sistema da Terra provocadas por humanos: as alterações climáticas, a acidificação dos oceanos, destruição do ozônio estratosférico, alteração nos ciclos de nitrogênio e fósforo, consumo de água doce, mudança no uso da terra, perda de biodiversidade, poluição química e em aerossóis. Cada uma destas nove, se demasiadas , poderia alterar o planeta até o ponto em que ele se torne um lugar muito menos hospitaleiro no qual viver.

Nos últimos 11 mil anos temos visto um clima notavelmente estável. O nome dado a esta época geológica mais recente é Holoceno. Talvez não seja coincidência que a civilização humana surgiu durante este período de estabilidade. O que é certo é que a nossa civilização dependente extremamente de que o sistema Terra permaneça dentro, ou pelo menos próximo, das condições do Holoceno.

É por isso que Rockstrom e colaboradores observaram os impactos humanos nestas nove diferentes áreas. Eles queriam considerar o risco dos seres humanos causarem o fim do Holoceno. Alguns argumentam que já estamos em uma nova época geológica – o Antropoceno – o que reconhece que o Homo sapiens se tornou uma espécie que altera o planeta. Mas o conceito de condições planetárias limitantes não apenas tentar quantificar os impactos humanos. Ele busca entender como estas podem afetar o bem-estar humano agora, e no futuro.

Tem sido estável por 11 mil anos. Steffen et al Clique para ampliar

Tem sido estável por 11 mil anos. Steffen et al
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O artigo de 2009 provou ser muito influente, mas também atraiu uma quantidade razoável de críticas. Por exemplo, tem-se argumentado que algumas das condições limitantes não são, de fato, em escala global. Há grandes variações regionais no consumo de água doce e na poluição por fertilizantes de fósforo, por exemplo.

Poluição por fósforo em áreas de cultivo. Steffen et al Clique para ampliar

Poluição por fósforo em áreas de cultivo. Steffen et al
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Isso significa que, enquanto globalmente podemos estar “no verde”, poderia haver cada vez mais regiões “no vermelho” profundo.

Fronteiras Atualizadas

A mais recente pesquisa desenvolve a metodologia de modo que agora inclui avaliações regionais. Por exemplo, ele avalia o uso de água doce a nível de bacias hidrográficas e as taxas de extinção de espécies em nível de bioma. Ele também inclui uma nova condição de “novas entidades” – novas formas de vida e novos compostos, dos tipos que o sistema Terra não conhece, e cujos impactos são extremamente difíceis de avaliar. CFCs que destroem o ozônio são, talvez, o melhor exemplo de como uma substância aparentemente inerte pode produzir danos planetários.

Cobertura arbórea remanescente nos principais biomas florestais do mundo. Steffen et al Clique para ampliar

Cobertura arbórea remanescente nos principais biomas florestais do mundo. Steffen et al
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O documento também dá uma atualização sobre onde estamos em relação a alguns dos limites do planeta. À primeira vista, parece que pode haver alguma boa notícia em observar que a mudança climática não está mais no vermelho. Mas uma inspeção mais detalhada revela que uma nova “zona de incerteza com risco em ascensão”, na cor amarela, foi adicionada à classificação verde e vermelha anterior.

2/9 no vermelho. Steffen et al Clique para ampliar

2/9 no vermelho. Steffen et al
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Impactos das mudanças climáticas estão firmemente dentro desta nova zona amarela. Nossa atmosfera tem atualmente cerca de 400 partes por milhão (ppm) de dióxido de carbono. Para se recuperar e chegar de volta à zona verde ainda temos de retornar a 350ppm – o mesmo limite de precaução de antes.

Talvez o mais importante seja que a pesquisa produz uma hierarquia de dois níveis, em que as alterações climáticas e a integridade da biosfera são reconhecidas como os limites planetários fundamentais através dos quais os demais operam. Isto faz sentido: a vida e o clima são os principais pilares de nossa existência contínua dentro do Holoceno. Ao enfraquecê-los, arrisca-se amplificar outras tensões sobre outras fronteiras.

Razões para não estarmos alegres

Então, vamos à notícia ruim. Dada a importância da biodiversidade para o funcionamento do clima da Terra e para as demais condições limitantes do planeta, é com consternação real que este estudo acrescenta mais uma evidência para a pilha crescente que conclui que parecemos estar fazendo o nosso melhor para destruí-lo tão rápido quanto pudermos.

As taxas de extinção são muito difíceis de se medir, mas a taxa de fundo – a taxa na qual as espécies seriam perdidas na ausência de impactos humanos – é algo como dez por ano por milhão de espécies. As taxas de extinção correntes estão em qualquer lugar entre 100 a 1000 vezes maiores do que isso. Estamos, possivelmente, no meio de uma das grandes extinções em massa da história da vida na Terra.

James Dyke responde suas perguntas sobre fronteira planetárias no Reddit AMA

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