Comunicação não-violenta para o ativismo

Indagações sobre o ‘agir ativista’

“Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo.” Essa frase de Mahatma Gandhi ecoa frequentemente entre aqueles que desejam melhorar ‘as coisas’, mais ainda em meio aos que se envolvem em algum tipo de ativismo. Mas será que praticamos o que pregamos?

Parece que temos a tendência de nos fixar nos objetivos finais, e nos esquecemos de que o todo é constituído  a partir de um processo integrado de pequenas partes. Queremos mudanças. Queremos um mundo melhor. Como alcançar isso? Equalizar rendas e/ou acesso a artigos fundamentais à sobrevivência, educação, reformas políticas, aplicação de tecnologias, livre acesso à informação e recursos, progressiva diminuição e/ou extinção de trabalhos inúteis, modificação de matriz energética, proteção ao ambiente, respeito aos direitos humanos… A lista é longa, embora existam consenso e clareza relativos desses pontos entre os grupos que vislumbram uma realidade que supere os paradigmas atuais. Serão apenas estes os “pontos intermediários” que devemos buscar para uma transição que possa nos levar à “mudança que queremos ver no mundo”?

Hannah Arendt, em “O que é Política?”, propõe que devemos diferenciar entre objetivo, meta e sentido, sendo que a estes ainda agrega-se um quarto elemento do agir político, que é o princípio do agir. Embora ela aplique este raciocínio à política, acredito que possamos apropriá-lo para a prática ativista.  Segundo ela:

“O sentido de uma coisa, ao contrário de seu objetivo, está sempre contido nela mesma; o sentido de uma atividade só pode existir enquanto durar essa atividade. Isso vale para todas as atividades, também para o agir, persiga ele ou não um objetivo. Dá-se o contrário com o objetivo de uma coisa; só começa a aparecer na realidade quando a atividade que o produziu chegou ao fim – da mesma maneira que a existência de qualquer objeto produzido começa no momento em que o produtor deu o último golpe de mão nele. Por fim, as metas pelas quais nos orientamos, produzem os parâmetros pelos quais deve ser julgado tudo o que é feito; elas excedem ou transcendem o tratado no mesmo sentido em que cada medida transcende aquilo que tem de medir.”

(o princípio) “é a convicção básica que um grupo de homens compartilha entre si (…)”

“(…) importância extraordinária desses princípios, os quais induzem, antes de mais nada, os homens ao agir e de cuja origem seu agir se alimenta sem cessar.”

Assim, às indagações anteriores seguem mais estas: quais seriam os objetivos, metas, sentidos e princípios que regem nosso agir ativista nessa busca por um mundo melhor? Possivelmente, se conseguirmos dar respostas a estas indagações teremos maior clareza para promover um ‘agir ativista’ mais consciente e eficiente.

Princípio da Não Violência

Obviamente, estou propondo um exercício aos leitores, uma vez que não tenho respostas concretas nem definitivas para as perguntas realizadas. A ideia é gerar uma discussão que possa auxiliar na construção coletiva de formas mais eficientes de se contribuir para as tais mudanças que desejamos.  Tendo em vista que esgotar os pontos levantados seria um processo longo, que foge da intenção deste artigo, será apresentado aqui um esboço inicial de como este processo poderia evoluir.

Pensando nos pontos levantados, talvez pudéssemos começar indicando princípios que norteassem nosso agir.   E, ao considerar a proposta de uma nova sociedade, mais igualitária e pacífica, um dos princípios que parece fundamental é o da não violência[1]. Embora provavelmente não haja concordância quanto a tal princípio, já que muitos acreditam que somente uma revolução armada, ou até um misto de estratégias violentas e não violentas teriam sucesso em alcançar esse novo paradigma social, parto do pressuposto de que “não se constrói uma nova sociedade utilizando-se os mesmos recursos predominantes na velha estrutura social”. Adicionalmente, considera-se aqui que ocorra uma transição através da superação gradual das instituições atualmente existentes, e não uma guerra mundial ou revolução que desconstrua tudo o que conhecemos e abra espaço para começar algo novo do zero. Embora esta última seja uma possibilidade real, as consequências danosas em termos de perda de vidas e recursos já existentes, além dos traumas psicológicos com efeito desestabilizador, provavelmente dificultariam a construção dessa nova sociedade nesta condição – por isso o foco na transição “gradual”[2].

Galeano Violência

“A violência gera violência, como se sabe; mas também gera lucros para a indústria da violência, que a vende como espetáculo e a converte em objeto de consumo.” Eduardo Galeano

Comunicação Não-violenta

Pensando agora no “agir ativista” a partir do princípio apresentado. A não-violência pode ser exercida através de diversos métodos. Uma lista foi elaborada por Gene Sharp, e pode ser acessada aqui. O livro dele, Como iniciar um revolução, é uma boa referência para o ativismo não-violento. Nessa valiosa lista, entretanto, não constam algumas possibilidades, dentre elas a “comunicação não-violenta”. A comunicação não-violenta, também conhecida como comunicação empática, foi desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg, e surgiu como forma de mediação e resolução de conflitos, inicialmente no processo de extinção da segregação racial nos EUA, e depois em diversos conflitos pelo mundo[3]. Esta ferramenta pode ser aplicada também em nosso dia-a-dia, para “apaziguar combates verbais” e “resolver desavenças e discórdias”.

Marshall Rosenberg explica os princípios da comunicação não-violenta (10min):

Nessa “nova fase da sociedade do espetáculo”, em que reina a “boçalidade do mal” (descrição elaborada por Hannah Arendt e bem apropriada por Eliane Brum), parecem faltar percepção e instrução para dialogarmos com o outro. A oposição de ideias e interesses, que deveria ser encarada apenas como mais uma expressão da diversidade, capaz de fomentar aprendizados e enriquecer experiências, tornou-se manifestação agressiva, cheia de antipatia e ódio. Quantas discussões no grupo do MZ tiveram que ser deletadas devido à intolerância, aos ataques pessoais, à falta de consideração com o semelhante? E isso dentro de um grupo de pessoas supostamente interessadas em contribuir para um mundo melhor, e que teoricamente já possuem algum tipo de esclarecimento… É preciso saber discutir opiniões divergentes de forma respeitosa, ouvir e compreender o ponto de vista alheio para alcançar um consenso ou ao menos uma convivência pacífica. Querer impor seu ponto de vista a qualquer custo também é uma forma de violência.

Compreender as motivações escondidas por trás do modo de falar e agir do outro é o primeiro passo para uma conversa que supere os preconceitos de cada um. Como disse Edgar Morin, “é preciso ensinar a compreensão humana”.

“Todo preconceituoso é covarde. O ofendido precisa compreender isso. O preconceito tem duas fontes: a covardia e a tolice. O intolerante em relação a etnia, cor da pele, orientação sexual, religião e extrato econômico tem medo de ser o que é. Ele só se eleva quando rebaixa o outro. Necessita ver que o outro não serve e não presta para ele poder valer alguma coisa. É um fraco que teme aquele que não é igual e se sente ameaçado por ele.” Mario Sergio Cortella

A comunicação não-violenta auxilia no processo de conexão com o interlocutor, permitindo que alcancemos tal compreensão, e que percebamos que simplesmente estamos falando com alguém que tem necessidades e medos, tal qual como nós mesmos. É um processo de auto-conhecimento e de conhecimento do semelhante.

Para saber em maiores detalhes como nos comunicarmos melhor de forma não-violenta há materiais muito bons de outras fontes. Seguem alguns exemplos para aqueles que quiserem começar:

Comunicação não-violenta: o que é e como praticar

Como Praticar a Comunicação Não Violenta

Introdução à Comunicação Não-Violenta – Workshop por Marshall Rosenberg

Apenas gostaria de enfatizar que não adianta simplesmente seguir as “regras básicas” da comunicação não-violenta para que ela tenha sucesso. É necessário que haja uma empatia genuína, uma real vontade de compreender o outro. Caso contrário, a pessoa com quem se conversa perceberá o cinismo e o esforço será em vão. Também é preciso ter paciência e saber o momento de “abandonar a empreitada” se for necessário, pois nem toda pessoa está disposta a se abrir para resolver a situação.

Outros fatores para melhorar a comunicação

Comunicar-se bem é essencial para qualquer pessoa que queira transmitir corretamente uma mensagem a outra. E pensando que um dos objetivos principais do MZ é a disseminação de ideias e conscientização, o comunicar tem um papel essencial neste ativismo.

Dessa forma, além da comunicação não-violenta, seria importante buscarmos a lógica e evitarmos falácias, identificarmos problemas como Efeito Einstellung/viés de confirmação e outros vieses de cognição, conhecermos a linguagem corporal… Ser a mudança que queremos ver no mundo depende, além de nossas ações diretas como ativistas, de conhecermos a nós mesmos e de buscarmos o constante aprimoramento pessoal.

communication-73331

 


[2] Certamente os questionamentos em relação às formas de se implementar um novo paradigma social são importantes, mas gerariam aqui uma digressão longa demais. Essa discussão pode continuar nos comentários ou em artigos posteriores. Neste sentido, recomendo a leitura das “Orientações para uma sociedade ética”, de Gabriel Bizzotto.

[3] Outras referências na comunicação não-violenta e de suas aplicações: Dominic Barter, Centro para comunicação não-violenta, Cultura de Empatia, Sistemas Restaurativos, Justiça Restaurativa (Coolmeia)…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s