Mapeando o paradigma pós-capitalista emergente e seus principais pensadores

Divulgado originalmente por Stacco Troncoso no Blog da P2P Foundation.

Texto traduzido por Hérson W. Cougo e Graciela Kunrath Lima, publicado aqui.

Imagens editadas para o português por Claudio Prospero e Patricia Piorum.

Paradigma capitalista atual

Blaq, do blaqswans.org, recentemente nos abordou com os infográficos originais em francês que ele co-produziu com sua colega Celine Trefle, os quais descrevem o paradigma capitalista atual e as alternativas pós-capitalistas emergentes visando enfrentá-lo. Os diagramas foram originalmente inspirados por uma discussão sobre o livro de Michel Bauwen com Jean Lievens sobre soluções pós-capitalistas interpares (P2P) , e eles foram posteriormente complementados com outras notas e esboços. Blaq e Celine tiveram a gentileza de traduzir os diagramas originais franceses para publicação em nosso blog (e Claudio Prospero e Patricia Piorum para o português), bem como o texto abaixo. Você pode encontrar versões de alta resolução dos diagramas nos links no final deste post (do post original).

“Nós não vivemos em uma era de mudança, mas em uma mudança de eras”, é a maneira como Jan Rotmans da Universidade de Rotterdam descreve as mudanças estruturais impactando nossas sociedades. Esta é também a frase que Michel Bauwens escolheu para abrir o seu mais recente livro ainda a ser publicado em inglês, cujo título provável esteja próximo a “Rumo a uma sociedade pós-capitalista com o Peer-to-Peer” (link em francês).

Para pensadores como Jan Rotmans e Michel Bauwens esta mudança de eras é semelhante à Revolução Industrial, na segunda metade do século 19, e caracterizada por transições em vários campos.  Em poucas palavras, as nossas sociedades enfrentam três grandes pontos de ruptura:

1 – Uma mudança na ordem social, de uma sociedade central, controlada hierarquicamente, para uma sociedade horizontal, descentralizada e baseada em uma unidade de trabalho de baixo para cima.

2 – A estrutura econômica em mudança: onde no passado as organizações burocráticas eram necessárias para produzir produtos baratos, na nova economia digital é possível desenvolver produtos e serviços localmente em pequena escala.

3 – Uma mudança nas relações de poder: onde a influência política e as economias de escala determinavam acesso aos recursos, hoje o conhecimento e a informação também são acessíveis fora das instituições políticas e sociais.

Seguindo esta análise, é com o objetivo de alcançar novas perspectivas que nós da blaqswans.org queríamos pintar um grande quadro do paradigma pós-capitalista emergente, sustentado por relações interpares (peer-to-peer) e nas dimensões colaborativas. Nós começamos a mapear vários domínios para ir além da evidência anedótica de que tal ou tal iniciativa está aventurando-se em compartilhamento de carros ou troca de casas.

Pensadores Pós-Capitalistas

Nós confirmamos algumas coisas ao elaborar este mapa:

1 – Há muito mais para essa transição que o “greenwashing”* oferecido por Uber e Airbnb, que são, na verdade, não interpares (peer-to-peer). Este é precisamente o motivo de nós deliberadamente reutilizarmos a forma de um favo de mel popularizado pelo infográfico “Economia Colaborativa em Favo de Mel”.  Ele lista as empresas de inicialização (“startups”) que afirmam ser parte dessa “economia compartilhada”, quando muitas são na verdade uma expressão do capitalismo desenfreado tentando otimizar ainda mais a “economia de venda” existente – nada de errado em vender mas não vamos chamar isso de “compartilhamento” com as reivindicações éticas geralmente ligadas a ele.

2 – O trabalho intelectual de teorizar essa nova economia já atingiu uma massa crítica que é muitas vezes negligenciada pelos economistas “mainstream”, por observadores e pelos formuladores de políticas, que o tratam como marginal.

3 – Juntas, as iniciativas práticas executadas ao nível das bases oferecem uma alternativa sustentável confiável, contradizendo a eventual percepção de que o paradigma pós-capitalista é uma utopia sonhada por hippies isolados.  Pelo contrário, agora é possível comprar comida regularmente fora das redes de distribuição dos varejistas de massa, é possível para uma grande cidade francesa como Grenoble, ou Barcelona na Espanha, ser controlada por movimentos populares, e é possível para os agricultores produzir de forma biodinâmica e comercialmente viável para escapar do ciclo vicioso de pesticidas e produtividade elevada.

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Este mapa é um trabalho em andamento e será melhorado à medida que progredimos.** Nós queríamos parar de contemplar os problemas do paradigma atual, e, no lugar, mostrar como cada uma dessas questões tem pensadores robustos e influenciadores que oferecem alternativas críveis (nós escolhemos apenas alguns exemplos para ilustrar, mas há obviamente muitos mais), e como essas alternativas começaram a ser implementadas para formar um sistema coerente que vai trazer uma sociedade pós-capitalista à vida.

Para que isso seja bem sucedido será necessário um movimento de movimentos, uma aliança de movimentos separados, incluindo uma coalizão dos movimentos globais de justiça social e ambiental, ambientalistas, ativistas para a anulação da dívida, e assim por diante. Não há, naturalmente, nenhuma garantia de sucesso. Toda mudança exige uma transição bem sucedida: este será o desafio. Mas a contagem e o mapeamento de nossas tropas é um primeiro e necessário passo para fazer esta causa prevalecer.

_________________

* “Greenwashing”: “lavagem verde”, um neologismo que indica a injustificada apropriação de virtudes ambientalistas por parte de organizações, empresas, governos, etc. ou pessoas, mediante o uso de técnicas de marketing e relações públicas, tendo como objetivo criar uma imagem positiva, diante opinião pública, acerca do grau de responsabilidade ambiental dessas organizações ou pessoas, bem como de suas atividades e seus produtos, ocultando ou desviando a atenção de impactos ambientais negativos por elas gerados.

** O gráfico atual é fraco em pensadoras e ativistas do sexo feminino. Você pode ajudar os autores a complementá-los através do grupo do P2P no Facebook (em inglês). Enquanto isso, recomendamos conferir nossa série sobre as “100 mulheres que estão co-construindo a sociedade P2P” (você pode contribuir com este projeto aqui – em inglês).

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