Entrevista: Michel Bauwens sobre Economia Interpares (peer-to-peer / P2P) e seu papel na reestruturação de nosso mundo

Publicado originalmente em Futurism.

Traduzido por Graciela Kunrath Lima; revisado por Gustavo Canto e Rodrigo Solera; publicado aqui. 

Michel_Bauwens2Michel Bauwens é um escritor, pesquisador e palestrante, e um especialista notável em economia interpares (peer-to-peer/P2P) [1]. Ele é pesquisador colaborador na Universidade de Amsterdam, especialista externo da Pontifícia Academia de Ciências Sociais, e fundador da Fundação Peer-to-Peer (P2P). Recentemente, falou com o colaborador do site Futurism, Daniel Araya, sobre o poder transformador da economia peer-to-peer e seu papel na reestruturação de nosso mundo.

DA: Michel, você tem uma reputação global como um escritor e palestrante sobre economia interpares, em particular sobre as dinâmicas sócio-políticas de produção entre pares. O que move o seu interesse em P2P? Como você define o P2P?

MB: Eu defino P2P como uma dinâmica relacional em que os cidadãos estejam capacitados para interagir uns com os outros na criação de recursos comuns.

Depois de cerca de 12 anos no mundo dos negócios, eu fiquei extremamente insatisfeito com o pensamento corporativo de curto prazo. Então, eu saí do mundo corporativo e tirei uma licença sabática de dois anos para estudar alternativas. Pesquisando a ascensão de tecnologias de rede, comecei a acreditar que as capacidades das redes interpares podem ter um papel fundamental em transformar os problemas inerentes à sociedade industrial.

Na produção por pares, comunidades produtivas estavam criando recursos compartilhados através da colaboração em rede, através de coligações empresariais e plataformas de negócios de valor agregado, e através de novos tipos de associação para benefício, como as Fundações de Software Livre (FLOSS).

Eu comecei a documentar essas novas práticas e criei uma wiki, que, desde então, cresceu rapidamente para mais de 20.000 artigos visualizados quase 30 milhões de vezes. Eu encontrei outras pessoas que queriam servir e apoiar este novo movimento P2P/Commons (Comuns) e, juntos, nós criamos a Fundação P2P.

DA: Parece haver vários formatos de P2P/colaboração distribuída (ou seja, voltadas para o lucro; sem fins lucrativos, cooperativas; baseado em comuns). Qual é a sua perspectiva sobre esses formatos? Eles são concorrentes uns dos outros ou de alguma forma se reforçam mutuamente?

MB: Formas ‘netárquicas[3] de infra-estrutura interpares (net-árquica significando a hierarquia do trabalho em rede, do ‘network’) não reinvestem os seus lucros. Em vez disso, eles são uma espécie de força parasitária contribuindo para uma crise de valores em que mais e mais “valor de uso” é criado pelo próprio povo, mesmo que uma escassa monetização seja exclusivamente capturada pelos proprietários da plataforma de trabalho em rede.

Meu trabalho é em grande parte baseado na visão de que temos de olhar além das organizações netárquicas, e em direção às cooperativas, cooperativas de plataforma de dados e novas formas de empreendedorismo ético.

DA: Existe uma forte sobreposição entre a produção por pares e a chamada “economia de compartilhamento” (particularmente em termos do que Rachel Botsman descreve como o consumo colaborativo). Eu sei que o seu próprio trabalho foca mais na colaboração entre os comuns do que no “capitalismo plataforma[2]. Como você define um bem colaborativo dos comuns? Como isso se diferencia da atual onda de ‘startups plataforma’ que vemos hoje?

MB: Há, creio, quatro tipos de bens comuns para distinguir neste contexto. O primeiro tipo são os bens comuns imateriais que herdamos, como a língua e cultura. O segundo tipo os bens comuns imateriais que criamos. Este é o lugar onde estão os bens comuns extremamente importantes, conhecimento e bens digitais (uma vez que os bens digitais estão atualmente explodindo). O terceiro tipo são os bens materiais que herdamos, os oceanos, a atmosfera, as florestas, etc; e o quarto tipo são, ainda que com potencial subvalorizado, os bens materiais que criamos, ou seja, os recursos manufaturados produtivamente.

O tipo de bem comum que eu normalmente estou discutindo é um bem comum do conhecimento, isto é, um bem comum que usa redes digitais para organizar a produção imaterial e a material. Considerando que a economia de compartilhamento é uma forma de mutualização da infra-estrutura física – e em particular de recursos materiais ociosos – ao permitir as trocas interpares, a produção pelos pares baseada em bens comuns ocorre quando as comunidades produtivas partilham os seus conhecimentos sobre a produção.

A diferença importante é que na produção pelos pares, bens comuns reais são criados por comunidades que têm uma enorme influência sobre o processo de produção. Em comparação, na economia compartilhada temos a exemplificação de “transações de mercado interpares” através de plataformas privadas, que, abertamente, atomizam indivíduos negando propriedade ou controle da plataforma, e inerentemente isolam as pessoas umas das outras por meio de algoritmos secretos, etc. É difícil perceber onde os bens comuns são encontrados em plataformas privadas como Uber e AirBnB, mas o valor deles é, na verdade, tornar possível o uso eficiente dos recursos ociosos. A deficiência dessas plataformas é o seu comportamento extrativo, que essencialmente externaliza todos os riscos para os trabalhadores e os consumidores. Desta forma, essas plataformas de “economia compartilhada” criam regressão social, minando os processos de solidariedade, colaboração social e de gestão de riscos que surgem organicamente com redes P2P interpares.

DA: Paul Mason argumentou recentemente que o capitalismo está agora atingindo um fim de jogo em que a tecnologia tem prejudicado a função econômica do mercado, através do movimento em direção à eliminação da escassez. Qual é a sua opinião sobre isso? Você vê o capitalismo persistir em tempos onde age a Lei de Moore?

MB: Ambos, Paul Mason e Jeremy Rifkin, apontam para o fato de que a maior disponibilidade de bens abundantes – sejam eles imateriais, tais como o conhecimento, ou materiais, tais como energia renovável – operam fora do funcionamento do mercado, uma vez que não são escassos. Isto está correto. Mas como podemos ver, o capitalismo netárquico usa esse processo para organizar uma forma mais parasitária do capitalismo, em que o capital não organiza a produção, mas facilita as trocas entre pares.

O problema é que essas empresas de plataforma estão fazendo isso como uma forma de externalização de investimentos, que então cria artificialmente cada vez mais escassez. Eu não acho que esses tipos de relações de produção são as mais adequadas, mas elas continuam independentemente disso. Na verdade, acho que a questão mais fundamental é saber se um sistema de crescimento infinito (capitalismo) pode persistir sobre os recursos naturais limitados (a Terra) indefinidamente? A resposta óbvia é, naturalmente, não. Em vez de capitalismo plataforma, precisamos nos mover em direção a plataformas de cooperativas e arranjos de múltiplas partes interessadas para a economia de compartilhamento e bens comuns.

DA: Assumindo que a economia de compartilhamento é apenas uma fase transitória no desenvolvimento da sociedade interpares, como podemos apoiar a evolução da produção de pares do ponto de vista institucional? O que você tem em mente a respeito do papel do, digamos, governo, em apoiar a produção interpares baseada em bens comuns?

MB: Na minha opinião, temos, potencialmente, três tipos de respostas do Estado para os bens comuns emergentes. Isto inclui duas respostas negativas e uma positiva. A primeira resposta é a hostilidade. Este é o caso com o governo Rajoy na Espanha, que deu início a medidas ativas contra a energia renovável distribuída e torna difícil o crowdfunding. A segunda resposta é a opção neoliberal dos conservadores do Reino Unido com o seu uso da ideologia Big Society de Phillip Blond, e a chamada “sociedade de participação” dos holandeses (onde o “estado de bem-estar social” foi oficialmente abandonado em 2013). A terceira resposta – e a opção preferida a meu ver – é o que é chamado frequentemente de Estado Parceiro. A ideia aqui é que o estado aprende a partir de associações com fins-lucrativos em produção de acesso livre, mas aplica este apoio institucional à sociedade como um todo.

Isto significa que um Estado Parceiro capacita e habilita a autonomia individual e social em termos cívicos, criando as condições infra-estruturais e legais adequadas para isso. O exemplo eminente é o Co-Bolonha na Itália e o seu Regulamento para o Cuidado e a Regeneração dos Bens Comuns Urbanos. Isso transforma a lógica do estado em torno ao permitir que grupos cívicos nos bairros locais trabalhem na melhoria urbana por si mesmos, enquanto o estado (federal e municipal) apoia este processo de baixo para cima, através de financiamento ou outro tipo de apoio infra-estrutural.

DA: Eu concordo com você que a economia interpares representa uma espécie de revolução social. Na verdade, a minha suposição é de que as tecnologias avançadas estão movendo as sociedades pós-industriais para águas desconhecidas. A ascensão de fábricas automatizadas, carros de auto-condução, inteligência artificial, e de impressão 3D pressagiam grandes mudanças sociais à frente (incluindo, talvez, a necessidade de uma renda básica universal [4]). Você é otimista sobre o futuro das ações interpares? Onde você enxerga o maior potencial para a colaboração distribuída trabalhando para o benefício da sociedade como um todo?

MB: Eu não sou nem otimista nem pessimista, pois transições são sempre caóticas e dolorosas. Mas para garantir que o resultado desta transição beneficie a maioria, vamos precisar que a sociedade civil torne-se mais autônoma em sua produção interpares orientada pelos bens comuns, e teremos que re-investir no estado, ou seja, acabar com o modelo de estado de bem-estar corporativo do neoliberalismo e re-criar processos de bem-estar comum de solidariedade humana.

Esta é uma luta política com um resultado incerto, mas, a fim de mobilizar forças sociais, precisamos ser resolutamente otimistas em nossas energias para a mudança. Não porque sejamos ingênuos, mas porque não temos outra escolha. Devemos perder toda a apreensão, a fim de ter esperança, e perceber que enquanto o sistema convencional é deslocado, cabe a nós plantar as sementes do futuro sistema, e utilizar a tecnologia para o benefício da maioria.

Talvez o mais importante, precisamos de um modo de produção que é, ao mesmo tempo, justo, sustentável e “livre” (partilha de conhecimentos e de infra-estrutura). Esta é a tarefa do nosso tempo. Nas mãos do 1%, a promessa tecnológica vai se tornar um pesadelo, mas isso não tem que ser assim. Nós podemos trabalhar juntos para distribuir seus benefícios de forma justa.

Daniel Araya é pesquisador e assessor do governo com um interesse especial na educação, inovação tecnológica e políticas públicas. Seus livros mais recentes incluem: Augmented Intelligence (2016), Smart Cities as Democratic Ecologies (2015), e Rethinking US Education Policy (2014). Ele tem um doutorado na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e é graduado pela Universidade da Singularidade no Vale do Silício. Ele pode ser encontrado aqui: www.danielaraya.com e aqui:danielarayaXY.


[1] A tradutora optou por utilizar o termo “interpares” (no sentido de “entre pares”, entre pessoas comuns e/ou iguais umas às outras) ao traduzir “peer-to-peer” para facilitar o entendimento dos leitores que não estão familiarizados com o assunto, embora o termo em inglês seja frequentemente utilizado na língua portuguesa. Também foi utilizada a “sigla” para o termo em inglês, P2P. Apesar de nem sempre admitirem exatamente o mesmo sentido, muitas vezes alguns outros termos são utilizados como sinônimos de “peer-to-peer”: “commons” (comuns), economia colaborativa, etc. Para entender melhor este conceito, acesse estes links: 1, 2, 3, 4.

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